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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Celíacos por diagnosticar

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O post de hoje traz-nos um artigo do site Celiac.com com novidades de uma pesquisa recente sobre a doença celíaca que permitiu concluir que ainda muito há por fazer para diagnosticar todos os celíacos que ainda andam por aí a sofrer de vários sintomas sem necessidade. É uma pena que mais de nove anos depois do meu filho mais velho ter sido diagnosticado, o tal iceberg celíaco de que se falava na altura, seja ainda uma realidade...


"Os médicos falham no diagnóstico de 90% dos casos de doença celíaca?

Os médicos estão próximos de diagnosticar o número real de casos de doença celíaca? Ou estão a falhar a grande maioria?

Os investigadores dizem há algum tempo que há muito mais pessoas com doença celíaca do que aquelas que estão a ser diagnosticadas, e que a grande maioria dos casos não é detectada.

Então, até que ponto estamos perto do número real? Bem, se um novo estudo realizado por investigadores canadianos na área da nutrição for indicativo de algo, os médicos estão muito longe de diagnosticar a maioria dos casos.

A equipa estudou as análises de quase 3.000 pessoas e as suas conclusões são fascinantes. Estes afirmam que noventa por cento dos casos de doentes celíacos não são diagnosticados.

Como é que isto acontece? Um dos motivos é que, mesmo os sintomas clássicos da doença celíaca, tais como dor abdominal, inchaço, gases, diarreia, anemia e perda de peso, podem imitar outras condições. Os sintomas menos clássicos, tais como fadiga, níveis baixos de vitamina C, D e cálcio podem ser enganadores.

O Dr. Ahmed El-Sohemy, professor de ciência nutricional da Universidade de Toronto, queria ver se a doença celíaca provoca desnutrição devido à menor absorção de vitaminas e minerais. Mas para fazer essa pesquisa, ele precisava de dados canadianos sobre a frequência de doença celíaca não diagnosticada.

Para esse fim, o Dr. El-Sohemy e os seus colegas analisaram amostras de sangue de mais de 2.800 indivíduos em Toronto. Um grupo tinha uma idade média de 23 anos e o outro 45. Entre os seus achados, estava 1% de celíacos, sendo que 87% desses casos não tinha sido ainda diagnosticado. Estes dados sugerem a necessidade de um melhor rastreio em grupos de alto risco genético."

Outros artigos:
Are Current Screening Methods Missing Too Many Celiac Cases?


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Porque há cada vez mais celíacos?

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Hoje, trago um post sobre um excelente artigo da revista The Scientist de Junho deste ano que, a propósito de um estudo liderado pelo Dr. Edwin Liu que concluiu que a prevalência de doentes celíacos é superior ao que se pensa, faz um apanhado do que de último se tem descoberto neste campo da investigação científica. O artigo é extenso e merece a pena ser lido por quem se interessa por estes assuntos; deixo aqui um resumo dos pontos principais para quem não percebe Inglês.


"Edwin Liu descobriu que a verdadeira prevalência de doença celíaca tinha que ser muito maior - mais de 3% aos 15 anos. "Foi uma surpresa", disse. "Estes números são muito mais altos do que qualquer outros citados nos EUA". Os investigadores que leram o artigo, que foi publicado online no início deste ano na revista Gastroenterology, ficaram igualmente surpreendidos. "Se vir as percentagens, é assustador", diz o Dr. Joseph Murray, um investigador da doença celíaca na Mayo Clinic em Rochester, Minnesota. Certamente, a estatística pode ser específica para a coorte de Denver, ele repara, mas encaixa-se com tendências semelhantes relatadas tanto nos EUA como no resto do mundo.

À medida que o uso da biópsia e outros métodos de diagnóstico melhoraram nas últimas décadas, a doença celíaca tornou-se mais fácil de detectar. Assim, quando os primeiros relatos de um número crescente de casos de doença celíaca nos EUA surgiram no início dos anos 2000, muitos investigadores atribuíram o aumento no progresso no diagnóstico da doença. Mas um exame mais detalhado dos dados sugeriu que haveria mais motivos. "Nós não estávamos apenas melhores em encontrar a doença celíaca", diz Murray. "Havia muito mais para investigar.”

A causa desta tendência aparentemente global continua a ser um mistério, não menos importante porque, enquanto a imunopatologia da doença celíaca tem sido estudada há décadas, permanece por identificar o que faz com que as pessoas desenvolvam a doença em primeiro lugar. Quase todos os pacientes diagnosticados têm mutações em pelo menos um dos dois genes que codificam para o HLA-DQ, um receptor de membrana em células apresentadoras de antígeno que ajuda o sistema imune a distinguir entre auto e não auto, e coordenar a atividade de células T. Mas nem todos os que têm esses genes de risco se tornam celíacos.

Uma coisa em que os investigadores da doença celíaca concordam é que a causa direta do aumento da doença provavelmente reside fora do nosso ADN. "Décadas, é muito rápido para que as mudanças genéticas ocorram", diz o Dr. Liu. "Temos que assumir que isto se baseia em factores ambientais". Os factores que foram mais certamente ligados ao aumento do risco de doença celíaca em crianças geneticamente predispostas incluem parto por cesariana e infecções intestinais por agentes patogenicos, como o reovírus (recentemente implicado num modelo de ratos), embora os seus impactos sejam provavelmente menores, diz o Dr. Murray.

Durante a década de 2000, por exemplo, vários estudos observacionais apontaram para um conjunto de factores alimentares, incluindo a idade da introdução do glúten, como influenciadores no desenvolvimento da doença celíaca. Mas as descobertas sofreram um golpe em 2014, quando dois ensaios clínicos randomizados não conseguiram encontrar qualquer efeito do momento da introdução do glúten. Os estudos também não encontraram evidências de um vínculo com a duração da amamentação.

Uma hipótese mais recente é que a quantidade de glúten consumida, e não o tempo, poderia desempenhar um papel no desencadeamento da doença celíaca em crianças. As reações a essas descobertas foram distintas, no entanto. Um factor agora sob escrutínio em doenças digestivas e outras é o uso humano de antibióticos e, consequentemente, a composição de bactérias que compõem o microbioma intestinal. As bactérias que vivem no intestino desempenham papéis importantes no metabolismo e na regulação das respostas imunes aos alimentos, portanto, para muitos investigadores, esses micróbios são provavelmente suspeitos na patogénese da doença celíaca. No entanto, as evidências circunstanciais acumulam-se e sugerem mais do que um papel passivo para estes micróbios.

Com tantos factores a serem investigados, o Dr. Edwin Liu diz que é improvável que a explicação para um aumento na incidência de doença celíaca seja simples. "Não creio que possamos encontrar um único gatilho ambiental", diz ele. "Será uma combinação.”

Por enquanto, o único tratamento é uma dieta sem glúten. Mas como o foco na doença celíaca se intensificou, também há pesquisa sobre os efeitos dessa intervenção - e os resultados não são encorajadores. Vários estudos sugerem que os intestinos dos pacientes celíacos não são capazes de se curarem completamente, mesmo com a dieta, pois a ingestão acidental desta proteína omnipresente é quase inevitável; mesmo pequenas quantidades podem desencadear sintomas. Além disso, os pacientes acham que a dieta isenta de glúten é difícil de tolerar porque é isoladora e, muitas vezes, impraticável.

Para melhorar os resultados em pacientes com doença celíaca, alguns cientistas estão a explorar maneiras de enfrentar a resposta do intestino celíaco ao glúten e, potencialmente, restaurar a tolerância:

Uma vacina que poderia ajudar a dessensibilizar os pacientes para o glúten através de uma série de tomas;
Atacar o corpo com parasitas intestinais pode ajudar a mitigar os efeitos desta doença auto-imune;
Um comprimido que exigiria que os pacientes continuem com a dieta isenta de glúten, mas serviria para reduzir a gravidade das reações à exposição acidental quando tomadas antes de uma refeição.

Com esses tratamentos alternativos ainda estarem num longo caminho até estarem disponíveis para o consumo comum, muitos provedores de saúde argumentam que a melhoria das taxas de diagnóstico deve ser a prioridade, para ajudar a entender e cuidar melhor do número crescente de pessoas que vivem com doença celíaca. Parte do atraso nas melhorias tem a ver com médicos gostarem de jogar à apanhada com uma gama crescente de sintomas reconhecidos como sinais de alerta. Há também reticência entre os médicos em diagnosticarem esta condição - uma situação que, de forma paradoxal, não foi ajudada pela crescente popularidade das dietas sem glúten e a publicidade em torno do "espectro" de distúrbios relacionados com o glúten."

Outros artigos:


domingo, 12 de março de 2017

Diagnóstico caseiro

Encontra-se à venda um teste de diagnóstico para a doença celíaca nas farmácias portuguesas chamando Veroval. Testa a presença dos anticorpos antitransglutaminase IgA e afirma ter uma exactidão de 98%. É um teste semelhante aos testes da glicémia o que envolve picar um dedo. O seu preço ronda os 21 euros. 

Este kit caseiro substitui um diagnóstico médico? Não. Este teste é ideal para as pessoas que querem fazer o rastreio para doença celíaca, mas cujos médicos assistentes recusam-se a pedir as análises. Um resultado positivo não elimina a necessidade de mais testes e um resultado negativo não elimina a possibilidade de se ter doença celíaca. Além disso, não é apto para pessoas com deficiência de IgA, celíacos seronegativos ou sensíveis ao glúten. Mas pode ser o primeiro passo para chegar a um diagnóstico.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Quantos somos?

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Começamos o ano com boas notícias: saíram no final do ano passado os resultados do primeiro estudo de prevalência de doença celíaca em Portugal, levado a cabo pela equipa da Dra. Henedina Antunes, do Hospital de Braga. Transcrevo aqui na íntegra o artigo da própria publicado na revista + Vida, do Grupo José de Mello Saúde.


"DOENÇA CELÍACA AFETA 0,7% DOS PORTUGUESES
Um em cada 151 portugueses (ou sete em cada 1000) tem doença celíaca, revela o primeiro estudo nacional sobre a prevalência da doença, realizado no Hospital de Braga, com o selo da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia Pediátrica e o apoio da Associação Portuguesa de Celíacos.

Todos já ouvimos falar da doença celíaca e de produtos sem glúten, mas será que sabemos quantos doentes existem realmente em Portugal? Até agora, ninguém tinha respondido a esta pergunta. Henedina Antunes, responsável pela Unidade de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica do Hospital de Braga, dá finalmente a resposta.

De acordo com o estudo coordenado por esta médica pediatra, a prevalência de doença celíaca na população portuguesa é de 0,7%. Curiosamente, é a mesma prevalência calculada pela investigadora na Universidade do Minho há cerca de dez anos, num estudo circunscrito ao concelho de Braga.

Feitas as contas, significa que um em cada 151 portugueses vive com esta doença autoimune, mesmo que ainda não saiba. O resultado não surpreendeu Henedina Antunes, uma vez que a prevalência europeia é de um para 100 ou de um para 200. Muitos, porém, duvidavam que fossem tantos.

“Estes números vêm dar força aos celíacos. Para a Associação Portuguesa de Celíacos, como interlocutora do Estado e das empresas, é importante ter dados nacionais para poder reivindicar”, explica.

Rastrear na adolescência para prevenir em vez de remediar
Ao todo, o primeiro estudo de prevalência nacional de doença celíaca envolveu 1340 adolescentes voluntários, entre os 13 e 14 anos, de escolas de vários pontos do país, designadamente Braga, Viana do Castelo, Vale do Sousa, Viseu, Lisboa, Amadora, Loures, Évora, Faro, Madeira e Açores. 

Porquê fazer o estudo em adolescentes? Henedina Antunes explica: “A adolescência é considerada a melhor fase para este tipo de investigação. Podíamos fazer em crianças muito pequenas mas provavelmente não apanharíamos todos os celíacos, ou podíamos fazer em adultos mas já apanharíamos doentes com osteoporose e outros problemas. Nos adolescentes ainda há a possibilidade de intervir adequadamente para prevenir a osteoporose e outras complicações e conseguimos uma prevalência mais correta.” Mas desengane-se quem pensa que a doença celíaca é uma doença de crianças e jovens. Na verdade, a doença pode surgir em qualquer idade. “O diagnóstico mais tardio que conheço é de uma senhora com mais de 80 anos”, relata.

Hospital de Braga foi fundamental
Neste estudo, o procedimento foi igual com todos os adolescentes. As equipas de investigadores dos hospitais locais, coordenadas por Henedina Antunes, foram às escolas e procederam à colheita das amostras de sangue. As amostras foram preparadas nesses hospitais e transportadas depois para o Hospital de Braga.

Henedina Antunes destaca a colaboração de Alexandra Estrada, diretora do Laboratório de Patologia Clínica do Hospital de Braga, e dos técnicos Francisco Lima e Arsénio Miguel, que foram fundamentais para que o estudo chegasse a bom porto, assim como o apoio dos investigadores de todo o país que muito contribuíram e da empresa que possui os marcadores para a doença celíaca (Thermo Fisher Scientific). Nuno Saldanha, aluno do 6.º ano de Medicina da Escola de Medicina da Universidade do Minho, agora já médico, fez o mestrado integrado com este estudo.

Um dos papéis do Hospital de Braga foi pesquisar, nas amostras que lhe foram encaminhadas, marcadores de doença celíaca, designadamente o anticorpo antitransglutaminase e IgA total. Cerca de um ano após o início do estudo, chegaram os resultados. “Foram detetados nove casos a nível nacional, dos quais apenas um era conhecido e já estava a cumprir a dieta sem glúten. Oito só souberam porque fizeram o estudo”, refere.

Anemia é o principal sintoma
Efetivamente, a doença celíaca pode levar muitos anos ou mesmo décadas a ser diagnosticada, sobretudo se a pessoa ignorar os sintomas. Os principais são anemia por deficiência de ferro resistente à terapêutica e problemas de crescimento. Cerca de 40% dos celíacos (menos do que antigamente) têm os sintomas clássicos, nomeadamente barriga distendida, diarreia, dores abdominais, irritabilidade e desnutrição.

Henedina Antunes aconselha as pessoas que suspeitem ter a doença a solicitarem a realização de um exame, que é simples e acessível: “O anticorpo antitransglutaminase está disponível nos centros de saúde desde 2012 e custa apenas sete euros”, incita.

Para confirmar a doença, pode ser necessário fazer uma biópsia do intestino através de endoscopia alta com anestesia. “Na biópsia, vê-se mucosa plana. O intestino normal tem uma espécie de dedos que aumentam a superfície de absorção. Nos celíacos, não há esses ‘dedos’. É por isso que eles têm má absorção”, explica.

Só com esta sensibilização será possível diagnosticar os casos que continuam escondidos debaixo do icebergue. Ao todo, haverá apenas uns 15 mil doentes diagnosticados, embora se calcule que haja perto de 100 mil doentes. Henedina Antunes já diagnosticou 154, seguindo atualmente cerca de uma centena.

Depois do diagnóstico, a autora de Manual de Sobrevivência para um Jovem Celíaco lembra que a dieta sem glúten é mesmo para toda a vida, o que está longe de ser um bicho-de-sete-cabeças. “Os celíacos devem ter orgulho e integrar a doença na sua personalidade.”

HEREDITÁRIO: SIM OU NÃO?
Os celíacos herdam um HLA de risco (HLA-DQ2 e DQ8), uma proteína que confere suscetibilidade aumentada para desenvolver a doença. Mas isso poderá nunca acontecer (por exemplo, se jamais contatarem com o glúten, como acontecia antigamente em países asiáticos).

O TRIGO É TODO IGUAL?
As modificações em termos de alimentação têm muito a ver com o aumento dos casos de doença celíaca nos países ocidentais. O trigo agora utilizado tem mais glúten do que antes.

TODOS DEVEM FAZER UMA DIETA SEM GLÚTEN?
Não. “Agora é moda fazer dieta sem glúten não sendo celíaco. Eu sou contra!”, afirma Henedina Antunes. “Os celíacos têm maior risco de ter outras doenças autoimunes, como diabetes ou tiroidite. Por isso, é importante que as pessoas saibam se são celíacas ou não”, avisa. Por outro lado, “os celíacos não gostam que esta seja uma dieta da moda porque não se valoriza tanto a doença e há maior risco de contaminação nos produtos”.

HÁ PRODUTOS NATURALMENTE SEM GLÚTEN?
Sim. Os celíacos podem fazer uma dieta com produtos naturalmente sem glúten, como arroz, milho, batata, legumes, fruta, ovos, peixe ou carne.

OS CELÍACOS NÃO PODEM COMER PÃO?
Hoje em dia não há alimentos proibidos porque já existe farinha sem glúten, embora seja 20 a 30% mais cara. Também já há pizzas sem glúten e menus sem glúten em cadeias de fast food e nos aviões.

OS CATÓLICOS PODEM COMUNGAR?
Agora já existem partículas sem glúten para que os celíacos possam comungar. Henedina Antunes foi instada a fazer um parecer para a Santa Sé sobre o assunto e, entretanto, a Igreja já autorizou.

EXISTE ALGUM CONVÍVIO DE CELÍACOS?

Anualmente, os celíacos diagnosticados no Hospital de Braga têm uma festa que terá a sua 20.ª edição em 2017. É o Hospital de Braga que apoia este evento."

Outros artigos:
Research Indicates 1.4% of Humans Have Celiac Disease


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

As bactérias e o glúten

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Saiu, este Verão, um novo estudo da Universidade McMaster, no Canadá, que procura esclarecer mais um pouco como se desenvolve a doença celíaca. Aqui, a "acusação" pende mais para a culpabilidade do microbioma errado, uma via de investigação já há muito abordada pelo Dr. Alessio Fasano e a sua equipa. A questão fulcral é saber se estimulando o desenvolvimento de um microbioma intestinal "bom" se consegue restaurar a tolerância ao glúten, havendo que esclarecer também quais são as bactérias que interessam promover para esse efeito. Para já, a ciência parece estar a caminhar a bom ritmo na direcção certa. Artigo daqui.

"Causas da Doença celíaca: as bactérias do intestino podem determinar se vai desenvolver a doença

Um novo estudo revelou que o glúten, que é conhecida por danificar o intestino delgado das pessoas que sofrem de doença celíaca, pode ser metabolizado pelas bactérias intestinais quando as enzimas falham na sua digestão.

No estudo publicado online na revista Gastroenterology, os investigadores da Universidade McMaster no Ontário, Canadá, descobriram que os ratos com presença de bactérias Pseudomonas Aeruginosa (PSA), isoladas de pacientes com doença celíaca, metabolizaram o glúten - uma proteína encontrada em cereais como trigo, centeio e cevada - de forma diferente de ratos que tinham sido tratados com Lactobacillus.

A doença celíaca é uma desordem auto-imune genética, na qual o paciente é incapaz de digerir o glúten completamente, levando a uma resposta imune em que os anticorpos atacam os órgãos internos tais como o intestino delgado. Isso danifica as vilosidades que permitem a absorção de nutrientes no intestino delgado, fazendo com que o corpo do paciente perca nutrientes como ferro, ácido fólico, cálcio, vitamina D, proteína, gordura e outros compostos alimentares que são essenciais.

A Fundação da Doença Celíaca, com sede na Califórnia, estimou que a doença afecta 1 em cada 100 pessoas em todo o mundo, enquanto nos Estados Unidos quase 2,5 milhões de pessoas ainda não foram diagnosticadas, expondo-os ao risco de complicações de saúde a longo prazo.

Ao estudar a química do metabolismo do glúten através da PSA e Lactobacillus, os investigadores descobriram que as Lactobacillus foram capazes de desintoxicar o glúten, enquanto as PSA produziram sequências de glúten que mostraram semelhanças com a inflamação em pacientes com doença celíaca.

"Assim, o tipo de bactérias que temos no nosso intestino contribui para a digestão do glúten, e a forma como esta digestão é realizada poderia aumentar ou diminuir as hipóteses de desenvolver a doença celíaca numa pessoa com risco genético", disse a autora principal do estudo, a Dra. Elena Verdu, professora associada da Escola de Medicina Michael G. DeGroote da Universidade McMaster, num comunicado de imprensa.

"A doença celíaca é causada pelo glúten em pessoas geneticamente predispostas, mas as bactérias no nosso intestino podem fazer pender a balança nalgumas pessoas para desenvolver a doença ou manter-se saudável", explicou ela.

Actualmente não há cura para a doença, sendo o único tratamento disponível uma dieta rigorosa, isenta de glúten para toda a vida. A Dra. Verdu, no entanto, disse: "Podemos estar mais perto de compreender a forma como as bactérias do intestino e os patogéneos oportunistas, tais como a PSA, podem afectar o risco de doença celíaca. Isto ajudar-nos-á a desenvolver estratégias para prevenir estes transtornos, mas é necessária mais investigação."

Mais info:


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Novo estudo sobre sensibilidade não celíaca ao trigo

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Aos poucos, a ciência avança e dá razão a todos aqueles que se queixam de sintomas associados ao consumo de glúten e/ou trigo, mas não preenchem os critérios para o diagnóstico de doença celíaca. Os estudos parecem apontar agora a mira ao trigo, ao invés de se culpar apenas o glúten, o que poderia, em parte, explicar porque alguns celíacos reagem também quando consomem produtos isentos de glúten, mas em que se utilizou amido de trigo desglutinizado na sua confecção. Deixo a tradução de um artigo da Fox News desta semana em que se aborda este novo estudo publicado na revista Gut.


"Sensibilidade ao glúten pode ser causada por resposta imune, é a conclusão de estudo.
Os indivíduos que sofrem de sensibilidade ao glúten, mas não têm a doença celíaca, podem finalmente ter uma explicação para a sua condição, de acordo com um novo estudo da Columbia University Medical Center (CUMC).

A equipa, em colaboração com a Universidade de Bolonha, na Itália, descobriu que os pacientes que experimentam vários sintomas gastrointestinais em resposta à ingestão de trigo podem sofrer de uma reacção inflamatória imune inespecífica que não é encontrada em pacientes com doença celíaca.

A inflamação, os investigadores disseram, deve-se a um intestino permeável, e a condição é referida como sensibilidade não celíaca ao glúten ou trigo (SNCGT). Os sintomas de SNCGT incluem problemas intestinais, bem como fadiga, dificuldades cognitivas ou distúrbios do humor.

"O nosso estudo mostra que os sintomas relatados pelos indivíduos com esta condição não são imaginados, como algumas pessoas têm sugerido," disse em comunicado à imprensa o co-autor do estudo Dr. Peter H. Green, professor de Medicina Phyllis e Ivan Seidenberg na CUMC e director do Celiac Disease Center. "Isto demonstra que existe uma base biológica para estes sintomas num número significativo destes pacientes."

Em pessoas com doença celíaca, o sistema imunitário ataca o revestimento do intestino delgado após a ingestão de glúten de trigo, centeio ou cevada. Isto produz vários sintomas gastrointestinais, como dor de estômago, diarreia e distensão abdominal. Os indivíduos com doença celíaca mostram dano intestinal, mas, ao contrário de pacientes com SNCGT, não demonstram uma resposta imune sistemática em grande escala.

Num estudo publicado na revista Gut, os investigadores examinaram 160 participantes: 80 com SNCGT, 40 com doença celíaca e 40 com nenhuma das condições. Descobriram que a SNCGT está ligada a uma barreira intestinal enfraquecida que permite que o movimento de micróbios e moléculas alimentares passem dos intestinos para o resto do corpo. Isto, os investigadores sugerem, em última instância, resulta na resposta imune inespecífica que os pacientes encontram em resposta ao glúten.

"Um modelo de activação imune sistémica seria consistente com o início geralmente rápido dos sintomas, relatado por pessoas com sensibilidade não-celíaca ao trigo," disse em comunicado à imprensa o principal autor do estudo Armin Alaedini, PhD, professor assistente de Medicina na CUMC.

Os autores do estudo estimam que cerca de 3 milhões de americanos sofrem de SNCGT. No entanto, também constataram que os pacientes com SNCGT que excluiram o trigo e glúten das suas dietas durante seis meses relataram melhorias significativas tanto nos sintomas intestinais como não intestinais.

Os investigadores esperam que estudos futuros lhes permitiram compreender melhor os mecanismos responsáveis pela SNCGT e pela doença celíaca. "Estes resultados mudam o paradigma do nosso reconhecimento e compreensão da sensibilidade não-celíaca ao trigo e, provavelmente, vai ter implicações importantes para o diagnóstico e tratamento", disse no comunicado de imprensa outro co-autor, o Dr. Umberto Volta, professor de Medicina Interna na Universidade de Bolonha. "Considerando o grande número de pessoas afectadas pela patologia e o seu significativo impacto negativo na saúde dos pacientes, esta é uma área importante de pesquisa que merece muito mais atenção e financiamento."

Outros artigos:
Report Highlights the Challenges of Diagnosing Non-celiac Gluten Sensitivity

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Novo algoritmo para diagnóstico


Junho continua em grande com mais novidades para o diagnóstico da doença celíaca: se ainda não viram, não deixem de ler este post no excelente blog da Raquel Benati, Dieta Sem Glúten. Este post aborda a pesquisa mais recente da equipa da Dra. Anna Sapone e que traz um algoritmo que permite separar o diagnóstico de doença celíaca e sensibilidade não celíaca ao glúten. Imperdível.


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Surpresas da doença celíaca

Abrimos o mês de Junho com um artigo recente que reporta as novidades que surgiram de um estudo americano publicado na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology que abalou algumas das ideias que se tinha sobre a doença celíaca.

"Investigadores descobrem surpresas sobre a doença celíaca

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Uma nova pesquisa revelou algumas descobertas surpreendentes sobre quem desenvolve a doença celíaca nos Estados Unidos. O estudo descobriu que é mais comum entre as pessoas cujos antepassados ​​vieram da região do Punjab, na Índia. Anteriormente, os especialistas pensavam que a doença celíaca afectava mais brancos de ascendência europeia.

A doença celíaca também parece afectar igualmente homens e mulheres, independentemente da etnia, disseram os investigadores.

"Hoje, é reconhecida como uma das doenças hereditárias mais comuns em todo o mundo", disse o autor do estudo, Dr. Benjamin Lebwohl, num comunicado de imprensa da American Gastroenterological Association. O Dr. Lebwohl é professor assistente de medicina e epidemiologia no Celiac Disease Center da Columbia University, em Nova Iorque.

(...) A doença celíaca afecta cerca de 1,8 milhões de americanos, afirmaram os investigadores. Mas a doença é, muitas vezes, sub-diagnosticada, disse o CDF. O diagnóstico é confirmado através de uma biópsia de tecido do intestino delgado, disseram os investigadores.

"As nossas descobertas ajudam a esclarecer qual a distribuição da doença celíaca nos EUA e ajudará os gastrenterologistas no diagnóstico dos seus pacientes", disse o Dr. Lebwohl.

Para este estudo, os investigadores analisaram dados de mais de 400.000 biopsias intestinais. Também usaram os nomes dos pacientes para ajudá-los a descobrir a distribuição da doença. Esta inclui um número de etnias, como as do Norte da Índia, Sul da Índia, Leste Asiático, Hispânico, Médio Oriente, judeus e outros americanos.

Assim como encontraram altas taxas da doença em pessoas da região do Punjab na Índia, os investigadores também descobriram que a condição era muito menos comum entre os americanos com ascendência no sul da Índia, Leste Asiático e hispânicos.

Entretanto, as pessoas com etnias judaica e do Médio Oriente tinham taxas da doença semelhantes às de outros americanos.

O estudo não mostrou nenhuma diferença nas taxas masculinas e femininas da doença celíaca em todos os grupos étnicos. Isto é importante porque estudos anteriores sugeriram que a doença celíaca pode ser mais comum em mulheres. Os investigadores consideraram que os médicos podem não procurar tanto pela doença nos homens.

"Com base nos nossos resultados, recomendamos que os médicos considerem a doença celíaca nos homens tão frequentemente como consideram nas mulheres", disse o Dr. Lebwohl."


terça-feira, 31 de maio de 2016

Má absorção de vitamina B-12

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Para fechar o Mês do Celíaco, deixo um relato na primeira pessoa de um diagnóstico de doença celíaca feito por uma médica de Urgência americana: é um exemplo de diagnóstico que todos os celíacos merecem, pois a médica em questão foi para além das evidências e pensou "fora da caixa". A maioria dos médicos perante um cidadão chinês (país onde os casos de DC são raros ou eram, até há pouco, considerados raros) com falta de vitamina B-12 poderia ter-se limitado a prescrever suplementos. Mas ela não o fez. E isto é o que precisamos, médicos que vejam para além das anemias, das tiroidites, do excesso de peso ou da falta de sintomas gastrointestinais, e rastreiem para doença celíaca. Aos poucos, um dia, chegamos lá.

"Medicina de Urgências: queda no chuveiro leva a dieta sem glúten

(...) Um jovem estudante universitário entrou no nas Urgências com dor no ombro depois de cair no chuveiro. Estes são lugares habituais em quedas, por isso, não era uma situação incomum. No início. Disse então que tinha perdido o equilíbrio depois de fechar os olhos e inclinar a cabeça para trás para retirar o champô do cabelo. Ele caiu e bateu na parede com o ombro. Para um jovem de 20 anos, manter o equilíbrio normalmente não é um grande desafio.

Enquanto disse que o ombro lhe doía um pouco, mostrou-se mais preocupado com a dormência nos pés, que, juntamente com fraqueza generalizada e fadiga ao longo das últimas semanas, levou-o a visitar o seu médico para fazer exames. Os exames de sangue mostraram que o paciente tinha uma anemia leve, o que levou o médico a verificar o seu nível de vitamina B-12, que estava baixo. O médico tinha começado então a fazer mais testes para descobrir a causa da deficiência de B-12. (...)

(...) Assumindo que a dormência nos pés do meu paciente estava, de facto, relacionada com a sua deficiência de vitamina, a sua condição provavelmente melhoraria à medida que os níveis de B-12 normalizassem. O próximo passo era determinar porque o seu nível estava tão baixo.

Como a sua ingestão de B-12 era suficiente, a segunda causa provável era pouca absorção de B-12 no estômago ou intestinos. A anemia perniciosa, uma das causas mais frequentes de baixa B-12 por má absorção, é marcada pela ausência de uma proteína no estômago. Os pacientes geralmente são mulheres de ascendência do Norte da Europa e, mais frequentemente, com idade superior a 60 anos. Uma vez que o meu paciente era um homem asiático de 20 anos de idade, a anemia perniciosa seria um tiro no escuro. Outras possibilidades eram a doença celíaca, HIV, inflamação crónica do pâncreas e até mesmo um tipo de infecção por ténia.

Quando perguntamos mais sobre a sua recente história dietética, o meu paciente disse que estava nos Estados Unidos há seis meses com um visto de estudante. Apesar de ter aderido a uma dieta mais tipicamente chinesa, rica em peixe e arroz, recentemente tinha vindo a comer muita pizza. Esta está cheia de glúten, será que ele poderia ter a doença celíaca? É uma condição auto-imune que faz com que o corpo ataque as células que absorvem o glúten no intestino delgado. Embora mais comummente associado com algum tipo de desconforto gastrointestinal, tais como diarreia ou cólicas abdominais, a doença celíaca pode ter poucos ou nenhum sintoma. Também pode prejudicar a capacidade do intestino em absorver a vitamina B-12.

As pessoas de ascendência chinesa, normalmente, não têm doença celíaca, mas alguma literatura recente sugere que esta pode ser mais comum do que pensávamos.

Entretanto, os raios-X do ombro do meu paciente estavam normais, e diagnostiquei uma separação menor no ombro, que não requeria cirurgia.

(...) Por fim, o paciente reuniu-se com um gastrenterologista que lhe diagnosticou a doença celíaca, e ele pode verificar o retorno dos níveis de B-12 ao normal quando eliminou o glúten da sua dieta. Posso informar que a dormência está a melhorar também."


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Contar ou não?

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Um post recente no blog Anti-Wheat Girl chamou-me à atenção um artigo de opinião que saiu no jornal Washington Post em que uma mãe relata como optou por, durante um mês, não contar à filha de 11 anos que tinha sido diagnosticada com doença celíaca. A criança já tinha um diagnóstico de tiroidite de Hashimoto e a mãe não a queria “sobrecarregar”. Aliás, os pais tentaram encontrar um médico que lhes dissesse que podiam esquecer o diagnóstico de doença celíaca. Felizmente, ninguém lhes disse isso.

Contudo, não partilharam o resultado da biópsia com a filha inicialmente porque esta estava a frequentar um campo de férias. Decidiram contar-lhe quando regressasse, mas entretanto foram passar uma temporada à praia e continuaram sem lhe contar, isto enquanto a viam ingerir glúten despreocupadamente. Foi na viagem de regresso que a menina perguntou pelo resultado da biópsia e os pais lhe explicaram o resultado. Surpreendentemente para os pais, a criança aceitou bem o diagnóstico e aderiu à dieta sem problemas.

Enquanto resisto ao impulso de criticar estes pais, tento compreender: a criança, aparte dores de barriga ocasionais, era assintomática. Eles não tinham feito o percurso de muitos pais que vêm os filhos a adoecerem dia após dia, sem resposta por parte dos médicos; nesta situação, quando aparece o diagnóstico de doença celíaca, o que domina é a sensação de alívio, porque já tantos cenários terríveis lhes tinham ocorrido. Além disso, ela já tinha outra doença auto-imune que, apesar de controlada, gera sempre preocupações. Como diz a mãe a dada altura, ”Eu não queria lidar com isso. Para além da minha auto-comiseração, sentia-me mal em pensar como a minha filha, sendo tão nova, teria que estar hiper-vigilante acerca da sua saúde e dieta”. 

No entanto, o facto é que enquanto estivesse a comer glúten, apesar de uma aparência saudável, o seu intestino deteriorar-se-ia cada vez mais. Até que ponto é que eles iam “esquecer” o diagnóstico? E como é que aguentavam vê-la comer glúten quando sabiam o mal que lhe fazia? Considerando que se trata de uma criança de 11 anos, capaz de compreender e gerir as consequências do seu diagnóstico, ainda se compreende menos que os pais tomassem esta decisão por ela. Especialmente, como se veio a verificar, quando não havia razões para dramatizar a situação.

Aceito, apesar de ter dificuldades em compreender, que um adulto queira ignorar um diagnóstico de doença celíaca (até conheço alguns). Que pais o façam já não consigo aceitar. Por mais que custe “digerir” um diagnóstico de doença celíaca, principalmente com o impacto que ainda tem na vida social dos seus portadores, é essencial, após um compreensível período de luto pela realidade que já não o é, focarmos os seus aspectos positivos: a dieta recupera a saúde sem necessidade de medicamentos e pode evitar o desenvolvimento de outras doenças a longo prazo. Que pai/mãe não deseja isso para a sua criança?

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Síndrome de Intolerância ao Trigo

Imagem retirada da Net
A sensibilidade não celíaca ao glúten (SNCG) é, ainda, dados os parcos conhecimentos sobre a mesma, um assunto polémico. O Dr. Stefano Guandalini do Centro de Doença Celíaca da Universidade de Chicago escreveu um artigo no último número da revista desta instituição em que sumariza os mais recentes desenvolvimentos no estudo da SNCG e no qual propõe o uso de uma nova designação: Síndrome de Intolerância ao Trigo. Um artigo muito interessante e esclarecedor, dentro do que se conhece sobre a SNCG.

Também de Novembro deste ano, podem encontrar aqui um artigo intitulado Gluten Sensitivity do investigador Carlo Catassi, publicado na revista Annals of Nutrition and Metabolism. Nele, faz um resumo alargado do que se sabe até agora sobre a SNCG, defendendo que um algoritmo de diagnóstico pode ser uma ferramenta útil para detectar casos de pacientes com esta condição.


"A Sensibilidade Não Celíaca ao Glúten é, na realidade, o Síndrome de Intolerância ao Trigo
Por Dr. Stefano Guandalini
Revista IMPACT de Novembro 2015
Uma publicação do CENTRO DE DOENÇA CELÍACA DA UNIVERSIDADE DE CHICAGO

Nos últimos anos tem havido um ressurgimento do interesse na "sensibilidade não celíaca ao glúten" (SNCG), descrita pela primeira vez em 1978 . Este conceito aplica-se a pacientes que não satisfazem os critérios para a doença celíaca (DC) ou alergia ao trigo, mas que relatam uma série de sintomas intestinais e / ou extra-intestinais após o consumo de alimentos que contêm glúten. Esses pacientes, por definição, não possuem nem os anticorpos nem a enteropatia característica da DC presentes.

Será realmente o glúten que causa a SNCG?
É importante notar que, mesmo depois de um ensaio de dupla-ocultação controlado por placebo, não há prova de que o glúten é o responsável pelos sintomas. Este tipo de ensaios geralmente usa trigo, em vez de glúten quimicamente purificado. Assim, é certamente possível que os pacientes que se suponham ter SNCG possam estar a reagir a componentes do trigo que não têm nada a ver com o glúten. Outros componentes preocupantes do trigo incluem, para além de outros, estes:

• Amido e outros hidratos de carbono, tais como frutanos (o mais comum FODMAP contido no trigo);
• Amílase / inibidores de tripsina (ATI) - estas proteínas de baixo peso molecular encontram-se em muitos cultivares modernos, bem como no trigo antigo, e descobriu-se que, em ambiente de laboratório, causa inflamação intestinal. Assim, é concebível, embora para já seja apenas especulação, que estas são responsáveis ​​por alguns sintomas gastrointestinais relacionadas com o trigo.

Numa pesquisa realizada em Itália com 486 pacientes com suspeita de SNCG, o quadro clínico foi caracterizado por sintomas gastrointestinais e sistémicos combinados. As manifestações gastrointestinais mais comuns eram inchaço, dor abdominal, diarreia e / ou obstipação, náuseas e refluxo gastro-esofágico. Entre as manifestações não-gastrointestinais mais comuns estavam a fadiga, dor de cabeça, dificuldade de raciocínio, dores musculares e de articulações típicas de fibromialgia, dormência de pernas ou braços, dermatite ou erupções cutâneas, depressão, ansiedade e anemia. Neste estudo, 95% dos pacientes relataram sintomas quase todas as vezes que ingeriram glúten. Noutro estudo, que incluiu 34 pacientes que seguiam a dieta sem glúten e com Síndrome do Cólon Irritável (SCI), mas sem DC, os sintomas intestinais e a fadiga reapareceram com mais frequência aquando da reintrodução do glúten do que no grupo de controlo (68% e 40%, respectivamente). Outras manifestações clínicas não-intestinais descritas incluem distúrbios neurológicos, tais como déficit de atenção e hiperactividade, problemas de sono, ataxia cerebelar, transtornos psiquiátricos, como o autismo, depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia, problemas musculares e doenças auto-imunes, tal como a psoríase.

É comum a SNCG?
Dada a falta de critérios diagnósticos objetivos, é impossível dizer. Como tal, as estimativas variam amplamente, de 0,6% para uma gritante percentagem de 50% em alguns sites populares, mas provavelmente imprecisas. A SNCG parece ser mais prevalente em mulheres do que os homens, em parentes de primeiro grau de pacientes celíacos, e em adultos, não em crianças. Na verdade, há apenas evidências limitadas de sua existência em crianças.

Diagnosticar a SNCG
Apesar das incertezas sobre a definição exata de SNCG, foram propostos os seguintes critérios diagnósticos:
1 Exclusão de doença celíaca;
2 Exclusão de alergia ao trigo;
3 Início rápido de sintomas intestinais e não-intestinais após ingestão de alimentos que contém glúten em pacientes com a seguinte histopatologia: ou mucosa intestinal normal ou "enterite linfocítica" (definida como um aumento no número de linfócitos intraepiteliais em mucosa completamente normal).

É essencial descartar a DC antes de rotular um paciente com a SNCG. Na verdade, os pacientes que começam a dieta isenta de glúten (DIG) antes de um rastreio diagnóstico adequado para doença celíaca arrisca perder este diagnóstico ou, pelo menos, atrasá-lo. Os indivíduos que acreditam que estão afectados por um distúrbio relacionado ao glúten devem ser examinados para doença celíaca, o que incluirá um exame de sangue e, na maioria dos casos, uma biópsia intestinal enquanto ainda mantiverem uma dieta com glúten. Tem sido relatado que cerca de 60% dos pacientes com SNCG têm uma mucosa perfeitamente normal. Os 40% restantes podem ter "enterite linfocítica", que também é comum numa série de outras condições para além da doença celíaca: infecções intestinais, gastrite por H. pylori, o uso de medicamentos anti-inflamatórios não-esteróides, dor abdominal recorrente, imunodeficiência comum variável, etc. Ainda assim, a "enterite linfocítica" é uma parte do espectro da DC e é importante para diferenciar entre esta e a SNCG em pacientes que a apresentam.

Não se identificaram ainda biomarcadores para a SNCG; no entanto, os anticorpos anti-gliadina positivos, principalmente IgG, têm sido encontrados entre 25% a 56% dos casos de SNCG. Esta prevalência, apesar de ser menor do que nos casos de DC (cerca de 85%), é claramente mais elevada do que na população saudável (até cerca de 10%), mas apenas marginalmente maior da que é encontrada noutros distúrbios, tais como SCI (20%) ou hepatite auto-imune (21,5%). Atenção: não está claro se estes anticorpos têm qualquer significado patogenético e, certamente, dada a sua sobreposição substancial com controlos e outros transtornos, o seu valor diagnóstico é mínimo.

Não há activos genéticos conhecidos na SNCG: de facto, o HLA-DQ2 e / ou HLA-DQ8 (genótipos presentes em 100% dos doentes com DC) são positivos em cerca de 40% dos pacientes com SNCG. Assim, os testes genéticos para os haplótipos HLA não são úteis para fins de diagnóstico.

Desafio de glúten para o diagnóstico de SNCG
Porque não há nenhum biomarcador específico para SNCG, o único padrão confiável para o diagnóstico seria um ensaio de dupla-ocultação controlado com placebo. No entanto, não há consenso sobre o que constitui um desafio de glúten adequado, pois as modalidades e quantidade de glúten utilizado têm variado entre ensaios clínicos. Claramente, existe uma necessidade urgente de padronizar um protocolo de diagnóstico para os ensaios clínicos. Em consultório, o diagnóstico é quase sempre feito a partir do relato do paciente e, muitas vezes, até mesmo sem se ter corretamente excluído a DC. Esta prática representa um grande obstáculo para o avanço na compreensão desta entidade.

Alergia ao trigo
É possível que, pelo menos, um subconjunto de pacientes com SNCG possa ter uma alergia alimentar não mediada por IgE. Estudos têm mostrado que cerca de um terço dos pacientes com SCI melhorou com uma dieta de eliminação, e piorou durante o ensaio de dupla-ocultação controlado com placebo, com a introdução de proteínas do trigo e do leite de vaca, o que sugere que uma parte deles possa sofrer de alergia alimentar não mediada por IgE. A maioria destes pacientes estudados apresentavam enterite linfocítica na mucosa duodenal.

Na fase inicial da doença celíaca
Enquanto o diagnóstico da doença celíaca segue um processo bastante padronizado e está claramente definido, há alturas em que o seu desenvolvimento precoce não permite que a doença seja detectada, quer por teste de anticorpos séricos ou pela patologia. No entanto, os sobrenadantes de cultura a partir de biópsias duodenais ou secções de tecidos de biópsias duodenais podem ser capazes de detectar os auto-anticorpos altamente específicos em pacientes sintomáticos, mas com histologia normal e marcadores serológicos negativos para DC. Assim, uma porção de pacientes diagnosticados com a SNCG podem, na realidade, ser pacientes com doença celíaca seronegativa e com dano intestinal ainda por evidenciar.

O efeito Placebo / Nocebo
O efeito profundo do placebo é bem reconhecido numa variedade de desordens gastrointestinais funcionais, e mesmo em condições orgânicas graves, tais como a doença de Crohn, onde cerca de 15% dos pacientes experimentam melhoria no grupo do placebo. A existência de um fenómeno relevante de efeito placebo / nocebo tem, de facto, sido relatada em ensaios de dupla-ocultação controlados por placebo em doentes adultos com auto-diagnósticos de intolerâncias alimentares onde foi sugerida a probabilidade de um efeito placebo de retirada do glúten. Num estudo sobre pacientes com sintomas de SII- que reivindicavam sofrer de várias intolerâncias alimentares, apenas 12 dos 32 (37,5%) pacientes que relatavam tais sintomas melhoraram com uma dieta de eliminação e reagiram aos ensaios de dupla-ocultação controlados por placebo, indicando que quase 2/3 desses pacientes, de facto, apresentam um típico efeito placebo / nocebo. Assim, é altamente expectável que uma porção dos pacientes com SNCG, e, sem dúvida, uma porção substancial, caia nesta categoria. Dada a falta de qualquer marcador de diagnóstico objectivo, isso parece bastante provável.

Conclusões
Até se saber mais, pode-se questionar se o glúten causa a SNCG e se esta envolve um mecanismo imuno-mediado. Na ausência de dados robustos, o termo "sensibilidade" deve ser substituído pelo termo genérico "intolerância". Assim, o termo enganador "sensibilidade não celíaca ao glúten" deve ser substituído pelo termo "síndrome de intolerância ao trigo," de modo a reflectir o papel causador deste cereal (em vez do glúten), bem como a falta de um mecanismo subjacente específico e potencial para múltiplas causas dos sintomas.

A dada altura, quando a pesquisa desmontar as várias componentes da síndrome de intolerância ao trigo e esclarecer a sua patogénese, a medicina irá abandonar este termo abrangente por outros mais específicos, assim como evoluiu a síndrome da "diarreia intratável da infância" dos anos 70, outro termo que foi abandonado ao longo do tempo à medida que novas entidades eram descobertas: doença de inclusão das microvilosidades, enteropatia por proteína do leite, imunodeficiências, entre outras. Até então, vamos todos humildemente dar um passo atrás: alterar a terminologia para outra que faça sentido, deixar de fazer algoritmos de diagnóstico como se estivéssemos a lidar com uma única entidade, e voltar à prancheta de desenho para projetar estudos rigorosos, prospectivos, randomizados, de dupla-ocultação controlados por placebo, com uma abordagem bastante padronizada de modo a responder às muitas e excelentes questões."

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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Anemia ferropénica e o glúten

Houve recentemente algum falatório na blogosfera sobre a anemia e a sua alta prevalência na sociedade portuguesa. A anemia é também o sintoma clássico da doença celíaca na idade adulta; vai daí, lembrei-me desta minha falha, nunca ter publicado nada sobre este tema. Hoje faço essa correcção, traduzindo um artigo do site About.com.

Imagem retirada da Net
"A anemia é um sintoma muito comum da doença celíaca. Por que é que a anemia e a doença celíaca muitas vezes aparecem juntas? Em primeiro lugar, vamos rever algumas informações básicas sobre anemia.

Na anemia, a capacidade do sangue de transportar oxigénio aos tecidos é prejudicada por causa de uma falta de hemoglobina (a proteína molécula complexa nos glóbulos vermelhos que transporta o oxigénio). Os sintomas da anemia podem incluir falta de ar, fadiga, fraqueza, tonturas, sensação de frio habitual, pulso rápido, palpitações e dor de cabeça.

A anemia tem múltiplas causas. O tipo mais comum de anemia - quer a nível mundial, e na doença celíaca - é conhecida como anemia por deficiência de ferro. O ferro é um componente crítico da hemoglobina, por isso, quando uma pessoa está deficiente em ferro, o corpo não a pode produzir em quantidades suficientes.

As pessoas com doença celíaca também podem ter anemia crónica, que está relacionada com o dano no intestino resultante da ingestão de glúten.

Anemia por deficiência de ferro

Na população em geral, a anemia por deficiência de ferro é geralmente causada por perda de sangue. A perda de sangue pode ser óbvia (por exemplo, com trauma ou hemorragia menstrual) ou invisível (tal como com uma úlcera de sangramento ou pólipo hemorrágico no tracto gastrointestinal). A anemia por deficiência de ferro também é, ocasionalmente, devida a uma dieta pobre em ferro ou gravidez, pois é necessário ferro extra para satisfazer as necessidades do feto e porque o corpo da mãe contém muito mais sangue durante a gravidez.

No entanto, entre as pessoas com anemia por deficiência de ferro que não é explicada por qualquer um desses outros problemas, há uma alta prevalência de doença celíaca. Por exemplo, de acordo com a American Gastroenterological Association (AGA), entre as pessoas com deficiência de ferro e sem sintomas gastrointestinais típicos de doença celíaca, 2% a 5% terão testes sanguíneos positivos para doença celíaca e 3% a 9% terão biópsias positivas.

Em pacientes com anemia por deficiência de ferro que têm sintomas gastrointestinais, a prevalência de doença celíaca é ainda maior: 10% a 15%. Portanto, a AGA recomenda que qualquer adulto com anemia por deficiência de ferro inexplicável (incluindo mulheres menstruadas) seja testado para a doença celíaca.

Porque é que a anemia por deficiência de ferro é tão comum entre os celíacos? Quando a doença celíaca não é tratada com uma dieta isenta de glúten, o revestimento do intestino delgado é danificado, o que leva à má absorção de ferro e outros nutrientes. Quando a quantidade de ferro absorvido por via gastrointestinal é inadequada, o resultado é anemia por deficiência de ferro. (Outras condições que estão associadas com má absorção e anemia por deficiência de ferro incluem a doença de Crohn, o uso excessivo de anti-ácidos e a cirurgia de bypass gástrico.)

Anemia por doença crónica

Enquanto a anemia por deficiência de ferro é uma consequência bem conhecida da doença celíaca, investigadores da Universidade de Columbia relataram pela primeira vez em 2006 que os pacientes com doença celíaca recém-diagnosticada têm uma "prevalência inesperadamente alta de anemia, não unicamente devida à deficiência de ferro." Especificamente, cerca de 12% dos seus pacientes anémicos tinha uma forma conhecida como "anemia por doença crónica." Este tipo, por vezes referido como "anemia de inflamação crónica", é normalmente observada em pacientes com infecções de longa data e doenças inflamatórias ou malignas. Nestas condições, a resposta do sistema imunitário para combater a inflamação pode interferir com a produção de células vermelhas do sangue.

Assim, e como as pessoas com doença celíaca que ingerem glúten têm uma intensa resposta inflamatória nos seus intestinos, não é surpreendente que a anemia por doença crónica se possa desenvolver. Um estudo italiano posterior mostrou que os pacientes com doença celíaca não tratada podem ter ambas formas, ao mesmo tempo: a anemia por deficiência de ferro e anemia por doença crónica.

Os testes para Anemia

O ensaio que revela mais comumente a anemia é um hemograma, em que os componentes do sangue são contados e analisados. Especificamente, as medidas das células vermelhas do sangue, glóbulos brancos, a quantidade de hemoglobina no sangue, a proporção de sangue representado por células vermelhas do sangue (conhecido como o hematócrito), e o tamanho médio dos glóbulos vermelhos (volume corpuscular médio). Outras informações – através de um exame microscópico de forma, cor e tamanho de células vermelhas do sangue e estudos de ferro - podem ajudar a determinar a causa da anemia."

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