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DADOS, DICAS E RECEITAS DE VIDAS SEM GLÚTEN



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Queques de limão

Uma receitinha rápida e fácil de executar, mas que resulta nuns queques saborosos e húmidos, a fazerem lembrar as madalenas da pastelaria Celicatessen. Inspirados aqui.

Ingredientes:
150 gramas de açúcar
120 gramas de farinha Doves Farm white self-raising
30 gramas de farinha de amêndoas
2 gramas de psílio em pó
1 colher de chá de fermento em pó
Sumo e raspa de ½ limão
3 ovos
6 colheres de sopa de leite/leite vegetal
150 gramas de margarina derretida
2 a 3 gotas de essência de rum (opcional)


Na cuba da sua batedeira coloque as farinhas, o açúcar, o psílio, o fermento em pó e a raspa do limão e misture bem. Acrescente depois os ovos e bata até espumar ligeiramente.

Junte de seguida o leite, a margarina, o sumo do limão e o rum. Bata muito bem a massa e deixe-a descansar cerca de 30 minutos no frigorífico.

Enquanto a massa descansa, unte levemente as formas com azeite (usei formas de silicone). Decorrido o tempo de descanso, encha as formas até 2/3 e leve a cozer em forno pré-aquecido a 220ºC durante  20 a 30 minutos, até dourar e um palito inserido no meio sair seco. Desenforme e deixe arrefecer numa rede.


















segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Anemia ferropénica e o glúten

Houve recentemente algum falatório na blogosfera sobre a anemia e a sua alta prevalência na sociedade portuguesa. A anemia é também o sintoma clássico da doença celíaca na idade adulta; vai daí, lembrei-me desta minha falha, nunca ter publicado nada sobre este tema. Hoje faço essa correcção, traduzindo um artigo do site About.com.

Imagem retirada da Net
"A anemia é um sintoma muito comum da doença celíaca. Por que é que a anemia e a doença celíaca muitas vezes aparecem juntas? Em primeiro lugar, vamos rever algumas informações básicas sobre anemia.

Na anemia, a capacidade do sangue de transportar oxigénio aos tecidos é prejudicada por causa de uma falta de hemoglobina (a proteína molécula complexa nos glóbulos vermelhos que transporta o oxigénio). Os sintomas da anemia podem incluir falta de ar, fadiga, fraqueza, tonturas, sensação de frio habitual, pulso rápido, palpitações e dor de cabeça.

A anemia tem múltiplas causas. O tipo mais comum de anemia - quer a nível mundial, e na doença celíaca - é conhecida como anemia por deficiência de ferro. O ferro é um componente crítico da hemoglobina, por isso, quando uma pessoa está deficiente em ferro, o corpo não a pode produzir em quantidades suficientes.

As pessoas com doença celíaca também podem ter anemia crónica, que está relacionada com o dano no intestino resultante da ingestão de glúten.

Anemia por deficiência de ferro

Na população em geral, a anemia por deficiência de ferro é geralmente causada por perda de sangue. A perda de sangue pode ser óbvia (por exemplo, com trauma ou hemorragia menstrual) ou invisível (tal como com uma úlcera de sangramento ou pólipo hemorrágico no tracto gastrointestinal). A anemia por deficiência de ferro também é, ocasionalmente, devida a uma dieta pobre em ferro ou gravidez, pois é necessário ferro extra para satisfazer as necessidades do feto e porque o corpo da mãe contém muito mais sangue durante a gravidez.

No entanto, entre as pessoas com anemia por deficiência de ferro que não é explicada por qualquer um desses outros problemas, há uma alta prevalência de doença celíaca. Por exemplo, de acordo com a American Gastroenterological Association (AGA), entre as pessoas com deficiência de ferro e sem sintomas gastrointestinais típicos de doença celíaca, 2% a 5% terão testes sanguíneos positivos para doença celíaca e 3% a 9% terão biópsias positivas.

Em pacientes com anemia por deficiência de ferro que têm sintomas gastrointestinais, a prevalência de doença celíaca é ainda maior: 10% a 15%. Portanto, a AGA recomenda que qualquer adulto com anemia por deficiência de ferro inexplicável (incluindo mulheres menstruadas) seja testado para a doença celíaca.

Porque é que a anemia por deficiência de ferro é tão comum entre os celíacos? Quando a doença celíaca não é tratada com uma dieta isenta de glúten, o revestimento do intestino delgado é danificado, o que leva à má absorção de ferro e outros nutrientes. Quando a quantidade de ferro absorvido por via gastrointestinal é inadequada, o resultado é anemia por deficiência de ferro. (Outras condições que estão associadas com má absorção e anemia por deficiência de ferro incluem a doença de Crohn, o uso excessivo de anti-ácidos e a cirurgia de bypass gástrico.)

Anemia por doença crónica

Enquanto a anemia por deficiência de ferro é uma consequência bem conhecida da doença celíaca, investigadores da Universidade de Columbia relataram pela primeira vez em 2006 que os pacientes com doença celíaca recém-diagnosticada têm uma "prevalência inesperadamente alta de anemia, não unicamente devida à deficiência de ferro." Especificamente, cerca de 12% dos seus pacientes anémicos tinha uma forma conhecida como "anemia por doença crónica." Este tipo, por vezes referido como "anemia de inflamação crónica", é normalmente observada em pacientes com infecções de longa data e doenças inflamatórias ou malignas. Nestas condições, a resposta do sistema imunitário para combater a inflamação pode interferir com a produção de células vermelhas do sangue.

Assim, e como as pessoas com doença celíaca que ingerem glúten têm uma intensa resposta inflamatória nos seus intestinos, não é surpreendente que a anemia por doença crónica se possa desenvolver. Um estudo italiano posterior mostrou que os pacientes com doença celíaca não tratada podem ter ambas formas, ao mesmo tempo: a anemia por deficiência de ferro e anemia por doença crónica.

Os testes para Anemia

O ensaio que revela mais comumente a anemia é um hemograma, em que os componentes do sangue são contados e analisados. Especificamente, as medidas das células vermelhas do sangue, glóbulos brancos, a quantidade de hemoglobina no sangue, a proporção de sangue representado por células vermelhas do sangue (conhecido como o hematócrito), e o tamanho médio dos glóbulos vermelhos (volume corpuscular médio). Outras informações – através de um exame microscópico de forma, cor e tamanho de células vermelhas do sangue e estudos de ferro - podem ajudar a determinar a causa da anemia."

Outros artigos:

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Fora de casa

Hoje, fui eu a convidada no blog Calma Com o Andor em resposta a um desafio da sua simpática (e democrática) autora, que deu voz mesmo a quem não concorda exactamente com ela (também não divergimos assim muito). Obrigada NM!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Mais cervejas sem glúten

O homem lá de casa tem uma nova cerveja sem glúten favorita: Daura Marzen. Entre as que já provou, e que constam neste post, esta é, até ver, a eleita. Sendo recente, encontramo-la na nossa viagem à Galiza e vem fazer par com a cerveja Daura, já presente no mercado nacional (costumo vê-la no Continente). Leva malte de cevada, que assumo ser "desglutinizado" porque a cerveja tem menos de três ppm. Para já, creio que ainda não está disponível em Portugal. O seu aspecto:




















No entanto, há uma nova cerveja sem glúten em Portugal, à venda, pelo menos, no Jumbo e a 1,75€ no site Uvinum. É a holandesa Mongozo Premium Pilsener, biológica e com um teor de glúten inferior a 10 ppm. Fica a dica.





















PS: para os leitores brasileiros, existe uma loja online com uma grande variedade de cervejas sem glúten, incluindo algumas das aqui mencionadas: No Freaking Gluten Beer


segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Penafiel sem glúten

Aproveitamos uma ida à Magikland em Penafiel para visitarmos o supermercado Coutyfil que tem uma grande secção de produtos sem glúten, ao mesmo nível dos supermercados Apolónia do Algarve. Encontramos os produtos habituais que se vêm em locais como o Celeiro e o Continente, com outras marcas menos presentes. Denota-se uma preocupação em oferecer uma grande variedade de produtos de qualidade, aliado a um simpático atendimento.

Inclusive, a nível de congelados existe bastante variedade, desde os congelados da Schar até aos doces da Cebrinatur, passando por bolinhos de bacalhau e croquetes caseiros. Os sócios da APC têm a vantagem acrescida de um desconto de 5%. Para quem mora longe, pode adquirir os seus produtos na loja online. Fica a dica.

Parte das nossas compras




















Update:
A partir de Dezembro, a Coutyfil dispõe de mais uma loja, desta vez na Póvoa de Varzim, na Avenida Vasco da Gama, Edifício Barcelos, R/C Esq.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Galiza sem glúten

Após uns dias passados na Galiza, pode-se dizer que esta está bem e recomenda-se a todos os que seguem uma dieta sem glúten. Já tive várias oportunidades neste blog de exemplificar como a Espanha está tão mais à nossa frente na questão da dieta sem glúten, mas esta visita mostrou quão grande é a distância.

Usando as dicas dadas pelo blog Celiacos a los Treinta, construímos o nosso roteiro de férias e não tivemos nenhum problema em manter a dieta em viagem. Desde inúmeros locais onde comprar produtos sem glúten, até restaurantes com carta própria e pastelarias dedicadas, não nos faltaram opções para comer. Ora vejam:

Santiago de Compostela

Restaurante Casal do Cabildo (Rua de San Pedro, 18)- não tem carta própria, mas os empregados estão familiarizados com a dieta e avisam quais os pratos isentos. Têm pão sem glúten.

Obrador Santa Real (Algalia de Arriba, 1)- uma pastelaria/mercearia que vende os típicos doces de santiago como a tarta e os feuchos. Feitos à base de amêndoa, são isentos de glúten neste local porque não produzem nenhum produto com glúten.

A Coruna

Raxaria As Neves (Ronda de Outeiro, 300)- o prato típico deste restaurante é o raxo, uma espécie de rojões de porco, fritos em azeite e alho. A filha do dono do restaurante é celíaca e o estabelecimento tem acordo com a Associação Galega de Celiacos. Provamos também a tortilha de batatas, deliciosa, e havia sobremesas sem glúten, mas já estávamos cheios. Têm pão sem glúten e uma atenção especial com as crianças. O serviço foi excelente.

Celicatessen (Rua Federico Tapia, 12)- uma pastelaria 100% sem glúten com muita variedade de produtos saborosos e de qualidade. O atendimento foi excelente e denotava um verdadeiro interesse em ajudar os celíacos e outros com diferentes intolerâncias (os produtos são isentos de lacticínios também). O pequeno-almoço que aí tomamos ficou na memória. Menção especial às madalenas.

Noia

Trattoria La Rustica (Calle Lugo, 8)- depois de visitarmos o Cabo Finisterra, demos um salto a Noia para almocar neste restaurante italiano. Quase toda a carta é adaptável para sem glúten, incluindo algumas sobremesas. Ainda que não estivesse ao nível de alguns restaurantes que visitamos em Itália, a massa e a pizza eram bastante saborosas. O serviço é agradável.

Vigo

Zona Cero Restaurante Tapería (Calle de Mexico, 8)- este restaurante no centro de Vigo tem assinalado na carta quais os pratos sem glúten e são-no quase todos, incluindo sobremesas como crepe e bolo de chocolate. Têm pão sem glúten e um serviço agradável. Têm também acordo com a Associação Galega de Celiacos.

Pan Para Todos (Calle Manolo Martínez, 15)- uma padaria/pastelaria 100% sem glúten, com imensa variedade e qualidade em doces e salgados. Só peca por não ter um espaço para sentar, para pequenos-almoços e lanches. Os miúdos tiveram dificuldade em escolher entre donuts, cake pops, bolachas, palmiers e eclairs...

Ourense

La Pepita Burger Bar (Avenida La Habana, 63)- esta cadeia galega de hambúrgueres oferece pão sem glúten a acompanhar os seus produtos, pelo que quase toda a carta pode ser isenta. No entanto, ficamos com alguma dúvida na formação dos funcionários, pelo menos o que nos atendeu hesitava nas respostas às nossas perguntas. Encontra-se também noutras localidades da Galiza e Madrid.

Celidulce (Calle Doctor Fleming, 35)- uma simpática pastelaria 100% sem glúten, cuja imagem de marca são os cupcakes e bolos de cake design que são pequenas obras de arte. Os miúdos, no entanto, optaram por gelados com cones caseiros, com que se deliciaram. Se vivesse por perto, encomendaria ali os bolos de aniversário, com certeza. Estava aberto depois do almoço, o que é uma raridade em terras espanholas.

Heladeria (Plaza San Martino)- uma gelataria que, infelizmente, estava fechada para férias, localizada mesmo ao lado da Catedral de San Martino. Oferece gelados sem todo o tipo de alergéneos. Fica para uma próxima visita.

Não menciono nenhum hotel em particular, pois há uma grande variedade de hóteis em Espanha que oferece refeições sem glúten. Fica a vontade de voltar e em disponibilizar estas pequenas oportunidades de "normalidade" aos miúdos, que deliraram a cada montra cheia de guloseimas isentas, em que a dificuldade está apenas na escolha. Sem dúvida, um destino a ser visitado, principalmente por quem vive perto da fronteira com a Galiza.









terça-feira, 18 de agosto de 2015

As doenças reumatológicas e a sensibilidade ao glúten

No post anterior abordei a questão dos sintomas músculo-esqueléticos na doenca celíaca; o post de hoje segue o mesmo tema, mas aborda a questão das doenças reumatológicas na ausência de doença celíaca. Como já sabemos, o problema com o glúten não se esgota na doença celíaca- existe ainda a sensibilidade não celíaca ao glúten e a alergia ao trigo. 

O artigo de hoje é um estudo espanhol publicado na revista Reumatologia Clínica e, sendo algo extenso, extraí daí alguns casos de pacientes que melhoraram significativamente das suas queixas, tendo despistado negativamente a doença celíaca, com a dieta isenta de glúten. É um artigo um pouco técnico, mas quem sofre destas doenças conseguirá certamente reconhecer os exames abordados.

"Sensibilidade não celíaca ao glúten e espondiloartrite

Imagem retirada da Net
Caso 1: mulher de 28 anos, com dor inflamatória crónica nas costas e fadiga com 10 anos de evolução. As radiografias simples mostraram sacroileíte bilateral evidente. Na RM da sacroilíaca foram observados os seguintes sinais de sacroileíte: Esclerose, marcadas erosões periarticulares e edema ósseo e bilateral. O B27 foi positivo, de modo que o diagnóstico da espondilite anquilosante foi estabelecido. Tinha uma irmã com DC. Não tinha quadro digestivo associado. A sorologia para DC com teste de despistagem de anticorpos transglutaminase e anti-peptídeos desaminados da gliadina, tanto IgG como IgA, foi negativa. A tipagem HLA mostrou DQ7 homozigótico, na ausência de DQ2 e DQ8. A biópsia duodenal mostrou uma infiltração intraepitelial de 37 por 100 enterócitos CD3, sem atrofia das vilosidades. A melhoria da dor nas costas e astenia ficou clara depois de três meses desde o início da dieta isenta de glúten. Aos 10 meses, houve resolução da dor lombar crónica, com recorrência após a ingestão inadvertida de glúten.

Caso 2: mulher de 28 anos, com dor lombar crónica e dor generalizada de características inflamatórias com critérios de Fibromialgia, um ano de evolução. O HLA B27 tinha título negativo e positivos os ANA em 1/80, sem especificidade. As radiografias simples mostraram esclerose de ambos as sacroilíacas com um diagnóstico diferencial difícil entre condensação osteíte do ilíaco e sacroileíte. A RM mostrou esclerose, erosões ósseas e edema demonstrativo de sacroileíte. A paciente reunia portanto critérios ASAS de espondiloartrite axial. Além disso, tinha um quadro digestivo associado com dispepsia, náuseas e vómitos. A sorologia para DC foi negativa. A tipagem HLA mostrou DQ7 e DQ6, com ausência de DQ2 e DQ8. A biópsia duodenal mostrou infiltração de 44 linfócitos intra-epiteliais CD3 por 100 enterócitos, sem atrofia das vilosidades. O quadro clínico foi remetido após sete meses de dieta isenta de glúten, tanto de dor nas costas, dor no corpo, e quadro digestivo. Aos 20 meses de acompanhamento, a remissão clínica foi mantida e referiu dor e a recorrência do quadro digestivo quando o glúten era retomado.

Caso 3: mulher de 50 anos de idade diagnosticada com espondilite anquilosante nos três anos anteriores, com sacroileíte bilateral em radiografia simples, com HLA B27 positivo. Tinha dor lombar inflamatória refratária incapacitante e grave, com resposta insuficiente a anti-inflamatórios. A RM da sacroilíaca mostrava esclerose, erosões ósseas e edema demonstrativo de sacroileíte activa. Sem esteróides, e difícil de gerir devido à coexistência de obesidade, espondiloartrose, hipertensão, alteração crónica das transaminases, diabetes mellitus, hipotireoidismo auto-imune e diarreia. A dor condicionada a uma vida limitada usando muletas e cadeira de rodas, dependentes de outras pessoas para o cuidado pessoal. Ileocolonoscopia com biópsias do íleo e cólon eram normais. A sorologia para DC era negativa; o HLA mostrou DQ5 homozigótico com ausência de DQ2 e DQ8. Foi oferecida a possibilidade de biópsia duodenal, mas a paciente optou por tentar a dieta isenta de glúten sem a fazer. Com a dieta e vitamina D a evolução foi muito favorável, com a remissão da dor incapacitante nas costas e diarreia em sete meses. Persistia a lombalgia mecânica e astenia. Foi adicionada uma dieta sem produtos lácteos com melhoria da fadiga. Na RM da sacroilíaca realizada aos 17 meses de follow-up foi observada remissão de edema ósseo. A paciente tinha recuperado a vida activa normal e voltado a trabalhar. Não voltou a ingerir glúten.

Caso 4: um homem de 39 anos, com dor lombar crónica com mais de 15 anos de evolução, espondilite psoriática diagnosticado com base em sacroileíte com edema ósseo na RM da sacroilíaca e psoríase. A condição do paciente era refractária e tinha sido proposta terapia biológica antagonista do factor de necrose tumoral. Teve uma criança celíaca, não tinha associados sintomas digestivos. A sorologia para DC foi negativa e mostrou DQ2.2 HLA (DQA1 * 02-DQB1 * 02). A biópsia duodenal marcava infiltração de 60 linfócitos intra-epiteliais CD3 por 100 enterócitos, sem atrofia das vilosidades. A dor nas costas melhorou notavelmente em cerca de um mês com dieta isenta de glúten. Num ano de acompanhamento, permaneceu em remissão da dor lombar com recidiva após ingestão de glúten. Não houve melhoria da psoríase.

Estes quatro pacientes com espondiloartrite axial, dois deles com espondilite anquilosante e um com espondiloartrite psoriática. São sensíveis ao glúten, com resposta clínica claro à dieta isenta de glúten apesar da DC ter sido descartada. Em dois casos, há um familiar celíaco. A melhoria da dor lombar crónica foi muito significativa, a ponto de haver resolução do quadro clínico, e em um caso foi observado remissão de edema da sacroilíaca mesmo depois de um longo tempo de acompanhamento. Além disso, em três pacientes nos quais houve exposição ao glúten, esta foi seguida de recaída clínica. É improvável que uma melhoria clínica como a descrita seja devido a uma coincidência ou efeito placebo. A observação de linfocitose intraepitelial juntamente com a evolução clínica apoia o conceito de espondiloartrite enteropática por sensibilidade não-celíaca ao glúten.

Sensibilidade não celíaca ao glúten e autoimunidade

Caso 5: mulher de 51 anos, seguida noutro centro artrite reumatoide erosiva, anti-CCP positivo. A sua situação clínica estava mal-controlada apesar de tratamentos químicos e biológicos. Era refractária ao tratamento anti-TNF e tinha sido incluída em ensaios clínicos de novos biológicos, como o ocrelizumab. Fez tratamento com metotrexato, rituximab, corticóides, indometacina, inibidores da bomba de prótons e sertralina. Embora a inflamação estivesse razoavelmente controlada com o tratamento com imunossupressores, ela tinha dor e astenia, diarreia, distensão e candidíase oral. A dor severa e a astenia condicionavam uma vida dependente. A sorologia para DC foi negativa. Decidiu-se tentar uma dieta isenta de glúten sem fazer tipagem HLA ou biópsia duodenal. A dieta foi seguida por clara melhoria em todos os quadros clínicos em seis meses. Aos quatro anos de dieta, mantinha-se em excelente estado clínico e tinha vida independente, fazia excursões ao campo e dançava zumba. Mantinha o tratamento com metotrexato 15mg semanais e prednisona por via oral 2,5 mg diários. Ao retomar o glúten tinha recorrência de diarreia, astenia e artrite, corroborando a sensibilidade ao glúten.

Caso 6: mulher de 39 anos, enviada por poliartrite simétrica, incluindo a participação da MCF e IFP, seis anos de evolução. RF, anti-CCP, ANA e HLA B27 foram negativos. Tinha recebido tratamento com sulfassalazina e corticosteróides, com melhoria parcial. Tinha associada astenia importante, candidíase oral e história de anemia por deficiência de ferro. Ela tinha sido previamente diagnosticada com síndrome do intestino irritável. A sorologia para doença celíaca foi negativa. A tipagem HLA mostrou a presença de HLA DQ8 e a biópsia duodenal mostrou 34 CD3 por 100 enterócitos. Aos nove meses após começar dieta isenta de glúten, teve resolução do quadro clínico. Encontrava-se assintomática, mantendo apenas sulfassalazina 1,5 g por dia, e tinha resolvido a anemia anterior. Aos dois anos de iniciar a dieta, permanecia assintomática, sem medicação. Recusou reintroduzir o glúten.

Caso 7: mulher de 49 anos, com diagnóstico de esclerose sistémica de forma limitada. Tinha Raynaud severo, com anticorpos centrómeros 1 / 2560. O resto das análises eram normais excepto Hb 11,5 g/dl. A gastroscopia mostrou gastropatia hipertensiva com angiodisplasia gástrica (water melon). O estudo do envolvimento cardiopulmonar foi negativo. O quadro clínico tinha quatro anos de evolução. Ela tinha fadiga severa, incapacidade de concentração e memória, distensão, diarreia intermitente, refluxo gastro-esofágico e candidíase oral. Não tinha tolerado o tratamento com esteróides. A coloração imuno-histoquímica da biópsia duodenal anteriormente considerada normal apresentou 25 CD3 por 100 enterócitos. Tinha o haplótipo HLA DQ2.5. Aos seis meses após o início da dieta, os sintomas digestivos tinham melhorado, assim como a fadiga e a Raynaud. Deixou de tomar a nifedipina. Adicionou-se suplementos minerais multivitamínicos, coenzima Q10 e Omega 3. Aos 18 meses após dieta estava assintomática, com resolução de sintomas digestivos, fadiga e cansaço mental. A Raynaud retornava ocasionalmente. Os anticorpos centrómero eram positivos a 1/160. A ingestão ocasional de glúten era seguida imediatamente por astenia, aftas e recidiva da sintomatologia digestiva.

Caso 8: mulher de 46 anos, com um quadro de mais de 10 anos de evolução com poliartrite e síndrome seco ao que posteriormente se juntou o fenómeno de Raynaud, teleangiectasias e úlceras digitais. Os dados analíticos mostraram FR 556 U, ENA anti-SS-A / Ro> 600, anti-ENA 140 U1 RNP RNP e anti-ENA-70 114. A capilaroscopia foi consistente com esclerose sistémica. A biópsia de glândula salivar foi consistente com a doença de Sjögren. Tinha-lhe sido sido prescrito o tratamento com corticosteróides, metotrexato, azatioprina, antimaláricos, leflunomida, estatinas, terapia antiplaquetária, anti-inflamatórios não esteróides, inibidor da bomba de prótons e antidepressivos. Ela tinha efeitos colaterais da medicação e baixa adesão ao tratamento. Tinha associada fadiga grave, diarreia e aftas orais. A sorologia para doença celíaca foi negativa e a biópsia duodenal normal. A tipagem HLA mostrou DQ2.2 (DQA1 * 02-DQB1 * 02) e DQ8. Aos quatro meses de iniciar dieta isenta de glúten teve clara melhoria nos sintomas gastrointestinais, fadiga e aftas assim como melhoria do inchaço nas mãos e lesões digitais. Se retomar o glúten, tem recorrência da diarreia. Dois anos mais tarde, a paciente está bem tratada com a dieta, leflunomida 10 mg por dia, Dacortín® 2,5 mg diários e suplementos vitamínicos e minerais. Os marcadores de autoimunidade mantiveram-se positivos para títulos similares.

Caso 9: mulher de 44 anos, encaminhada para outro hospital por repetição de artrite. Tinha ANA positivo flutuante e anticardiolipina IgG e IgM positivo em título baixo. Diarreia e astenia importante associadas; tinha sido diagnosticada com a síndrome do intestino irritável, e tinha uma filha com doença celíaca. A DC foi descartada pela sorologia negativa e biópsia duodenal, no entanto a paciente seguia desde há três anos uma dieta isenta de glúten não rigorosa, com clara melhoria nos seus sintomas, e pioria se ingeria glúten. Não quis fazer provocação. Os ANA foram positivos 1/160 e os anticorpos anticardiolipina foram negativos. Tinha o haplótipo HLA DQ2.5 e a revisão da biópsia duodenal anterior mostrou enteropatia Marsh tipo 1, 33 CD3 por 100 enterócitos. Foi recomendada uma restrita dieta isenta de glúten assim como a remoção de lácteos; foram adicionados suplementos de vitaminas e minerais, e Omega 3. No acompanhamento aos dois anos estava em remissão dos sintomas digestivos, da fadiga e do quadro articular. Os ANA estavam positivos a título 1/80 , a anticardiolipina mantinha-se negativa.

Neste artigo, postulamos a hipótese, com base em motivos razoáveis e observações clínicas, que a sensibilidade não celíaca ao glúten está associada a uma grande variedade de manifestações reumatológicas, incluindo fibromialgia, espondiloartrite e doenças autoimunes sistémicas. Na nossa experiência, os dados clínicos mais importantes que indicam a presença desta condição são a fadiga inexplicável grave, aftas, os sintomas digestivos associados, anemia por deficiência de ferro e ter um familiar celíaco. Estes dados clínicos devem ser particularmente considerados quando os pacientes com doença sistémica têm associado um quadro de fibromialgia. O bom desempenho após a dieta isenta de glúten, tanto nas manifestações do tipo da fibromialgia, bem como da artrite e sacroileíte, fazem-nos pensar que a sensibilidade ao glúten pode ter um papel etiopatogénico que funciona como gatilho em alguns pacientes com doenças autoimunes sistémicas."


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sintomas músculo-esqueléticos e o glúten

Imagem retirada da Net
Este novo estudo americano relembrou-me a importância em chamar a atenção para os sintomas músculos-esqueléticos tantas vezes associados às condições associadas ao glúten. São inúmeros os relatos que já encontrei de pessoas cuja primeira evidência de que a dieta sem glúten estava a funcionar prendia-se com o desaparecimento das dores nas articulações. Deixo um artigo da Healthline sobre o mesmo estudo.


"Novo estudo mostra que crianças com problemas nas articulações devem ser rastreadas para a condição auto-imune que é a doença celíaca.

A doença celíaca afecta pelo menos 1 em 133 pessoas nos Estados Unidos - muitos deles crianças. Cerca de 300.000 crianças nos EUA vivem com artrite juvenil. Agora, pode-se ter descoberto uma ligação.

Crianças com sintomas reumáticos, tais como dor nas articulações, inchaço das articulações ou problemas vários do tecido conjuntivo devem ser examinado para a doença celíaca (DC). Essa é a recomendação de um novo estudo publicado na revista Pediatrics.

Investigadores da Unidade de Reumatologia Pediátrica do Hospital for Special Surgery, em Nova Iorque (HSSNY), bem como da Divisão de Reumatologia do Mount Sinai Medical Center, em Nova Iorque e da Divisão de Reumatologia Pediátrica da Robert Wood Johnson Medical School, em Nova Jérsia, passaram sete anos a investigar uma possível ligação entre a apresentação pediátrica de dor nas articulações e doença celíaca.

Dor nas articulações na infância e a doença celíaca
Entre junho de 2006 e dezembro de 2013, a equipe de investigadores estudou 2.125 pacientes com idades entre os 2 e os 16 anos que foram tratados na Divisão de Reumatologia do HSSNY.

Destes, 36 eram suspeitos de ter doença celíaca "silenciosa" (sem sintomas gastrointestinais). 30 destes 36 tiveram a suspeita de doença celíaca confirmada através de exames de sangue e endoscopia. 22 destes pacientes apresentaram apenas dor músculo-esquelética e nenhum dos sintomas gastrointestinais clássicos da doença celíaca. Apenas 12 dos pacientes relataram sintomas intestinais, provando quão ampla pode ser a lista de possíveis sintomas celíacos.

Actualmente, nem o Colégio Americano de Gastrenterologia, nem a Sociedade Norte-Americana de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição, consideram como grupo de risco os doentes com artrite juvenil ou crianças que apresentam problemas nas articulações ou dor músculo-esquelética. Os investigadores deste estudo querem que isso mude. Afirmaram que, "Os nossos dados sugerem que pode haver um subgrupo de pacientes com DC silenciosa que se apresenta com sintomas músculo-esqueléticos isolados e que, talvez, [a artrite idiopática juvenil] não é um diagnóstico adequado nestes casos. Os clínicos devem estar atentos em casos como estes de modo a avaliar adequadamente para DC. "

O que pensam os especialistas?
De acordo com o Hospital for Special Surgery, em Nova Iorque, "As pessoas com doença celíaca são mais propensas a ter doenças auto-imunes como a artrite reumatóide ou lúpus, mas a relação exacta ainda está sob investigação."

A Dra. Margalit Rosenkranz, uma reumatologista pediátrica da Divisão de Reumatologia Pediátrica do Hospital Infantil de Pittsburgh, concorda. Ela disse ao Healthline, "A doença celíaca é uma doença sub-diagnosticada e há alguns pacientes que se apresentam com dores nas articulações e queixas extra-abdominais. Há uma conhecida associação entre a doença celíaca e dor nas articulações ou artrite comum. Normalmente, esses pacientes já têm um diagnóstico de doença celíaca e, em seguida, desenvolvem sintomas nas articulações ou músculos. "

A Dra. Rosenkranz acrescentou que uma dieta sem glúten - o único tratamento para a doença celíaca - nem sempre é uma maneira infalível para acabar com a dor nas articulações: "Entre quem tem dor nas articulações associada a doença celíaca, algumas crianças poderão responder a uma dieta isenta de glúten, mas não é certo que eliminar o glúten tratará sempre a dor nas articulações."

Esta médica reconheceu o valor em continuar esta linha de investigação e potencialmente fazer o rastreio para a doença celíaca em crianças com dor nas articulações.

"A triagem de anticorpos celíacos em todas as crianças com dor nas articulações ou inchaço das articulações não é feito rotineiramente, mas como é demonstrado pelo estudo recente [do] Hospital for Special Surgery, pode valer a pena o rastreio de todas estas crianças para a doença celíaca", disse a Dra. Rosenkranz.

A Arthritis Foundation reconhece que iniciar uma dieta sem glúten para tratar a artrite pode ser benéfico, mas muitos dos seus especialistas afirmam que ainda não está provada esta relação. No entanto, os autores do estudo argumentam que os resultados destacam o quanto é importante para, ainda assim, fazer um rastreio à doença celíaca em crianças que se apresentam para uma avaliação de reumatologia."

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