INFORMAÇÃO É PODER

DADOS, DICAS E RECEITAS DE VIDAS SEM GLÚTEN



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Em Espanha

Dizem que de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos... Mas este é um dito que está ultrapassado, pelo menos no que aos celíacos e sensíveis ao glúten diz respeito. Fomos a Espanha este fim de semana e aproveitamos o mote para estrear o miúdo mais velho nos meandros da fast-food: aos 5 anos, o meu filho provou uma Happy Meal do McDonalds! Não ficou a olhar para os outros e pode fazer mais do que brincar com o brinde que acompanha este menu, pode comer o hamburguer (para o bem e para o mal). Na loja há várias indicações de que existe pão sem glúten e até o iogurte que vinha a acompanhar a refeição, vinha rotulado "Sin Gluten". O pão era exactamente igual ao hamburguer tradicional que, pessoalmente, não me agrada mas que demonstra um certo esforço por parte da empresa em apresentar uma alternativa semelhante ao original. Tão fácil... senhores da McDonalds Portugal, é assim tão difícil fazer o mesmo cá? É só preciso boa vontade.

As compras no Alcampo correram igualmente bem. Existe uma boa oferta de produtos específicos para celíacos, mas interessa salientar o que se encontra nos corredores "normais". Exemplos: uma caixa de doces de amêndoa rotulados como sem glúten e com o símbolo da Face por 3 euros, assim como uma pasta de dentes para crianças "sin gluten". Ficamos então à espera de Janeiro de 2012 para ver se vai ser assim tão fácil fazer compras cá.
















































sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Testemunho 2


Imagem retirada da Net

Às vezes encontro pessoas que, pelos sintomas que referem ou pela sua história de vida, me parecem "sofrer" de intolerância ao glúten. Afinal, só dez por cento dos cem mil portugueses que se estima ter esta condição é que estão diagnosticados, logo o meu radar está sempre em alerta à procura dos outros noventa mil. Quando me parece encontrar alguém que encaixe no perfil, faço um pequeno alerta, uma chamada de atenção. Invariavelmente, todos com quem falo acham que estou completamente errada, inclusive dentro da minha família onde, pelo próprio diagnóstico do meu filho mais velho, existe o potencial genético. Não torno a repetir o alerta, afinal, o pior cego é aquele que não quer ver. Compreendo que as pessoas não queiram aceitar um diagnóstico que as vá afastar tanto do conforto das suas rotinas, do pãozinho pela manhã, da ida ao café para o lanche.

Para aqueles que querem ver, que querem uma resposta às suas dores, publico mais um testemunho. Foi com estas histórias que fiz o paralelo com o que se passava com o meu filho e o "diagnostiquei". Um testemunho duma jovem mãe publicado no fórum celiac.com, e que ela espera que possa ajudar outros como ela (publico tal como ela escreveu, ainda que haja alguma incorrecção nos dados sobre a DC, porque o que importa reter é a sua luta com o glúten).

“Nunca vou esquecer as palavras que a minha mãe me disse quando eu tinha sete anos "Temos que deixar a reunião de família para te levar ao hospital." "Hospital? Porquê? Eu sinto-me bem e quero ficar no Kentucky com a minha família!" Mas eu não estava bem. Tinha as amígdalas do tamanho de bolas de golfe e um diagnóstico de mononucleose. E este foi apenas o começo duma saga de doenças que durou toda a minha vida.


Eu sou a única pessoa que conheço que teve mono mais do que uma vez. Tive-a aos 7 anos e novamente aos 14 e 21. Acabei por perder o último mês do meu primeiro ano do liceu porque estava muito doente. Naquela época eu tive mono, infecção por estreptococos e pneumonia, tudo ao mesmo tempo. E, uau! Infecções de garganta? Estas tornaram-se tão comuns que eu nem sequer tinha que dizer ao meu médico quais os sintomas. Lembro-me da minha mãe dizer "Eu acho que é garganta novamente." Eles colocavam o cotonete gigante pela minha boca abaixo e vinha positivo, sempre. Isto até ao momento em que retirei as amígdalas aos 22 anos; elas estavam cheias de pus que se espalhou até ao fundo da minha garganta quando os médicos as cortaram. Tanto que eles disseram que apareceu um cheiro de morte quando fizeram o primeiro corte.


Durante o meu primeiro ano na escola, tornei-me uma "aberração da natureza", que foi o que algumas pessoas, carinhosamente, me chamaram até há alguns meses atrás. A urticária aparecia-me pelo corpo todo. As manchas iam e vinham aleatoriamente. Eu encontrava culpados em tudo, desde o tempo frio, ao álcool, às hormonas, às meias e calças apertadas, e o stress. Apareciam principalmente nos braços e pernas, mas, às vezes, também na barriga. Lembro-me que em algumas ocasiões tive que ir ao centro de saúde para levar injecções de esteroides, porque as minhas mãos inchavam tanto que eu pensava que elas iriam, literalmente, rebentar. Lembro-me também de ser capaz de arranhar a minha pele e uma mancha aparecer. Mas o alergologista disse-me que eu era apenas alérgica a gatos, cães e ácaros. A reumatologista disse que eu também estava bem, embora, num primeiro momento, ela pensasse que eu tinha Lúpus!


Outro problema que tenho enfrentado na vida é o medo de todas as mulheres - a infertilidade. Embora eu esteja agora divorciada do marido com o qual tive a infertilidade, sei agora que não posso culpá-la na relação stressante que tínhamos. Houve aqui uma questão mais profunda a trabalhar por trás o tempo todo. Mas nada pode descrever a dor e agonia de querer tanto uma criança que quase se a pode sentir. E nada pode ser mais desconcertante do que correr todos os centros de fertilidade possíveis, só para ouvir que é " infertilidade inexplicada." Noutras palavras, tudo está a funcionar correctamente… Só não temos nenhuma ideia porque não se concebe. NUNCA pensei que qualquer coisa que eu estivesse a comer me poderia estar a impedir de ter a linda criança  que eu sempre quis.

Lembro-me de, aos 30 anos, acordar uma manhã e não ser capaz de mover o meu corpo. Literalmente, todos os músculos do meu corpo estavam tão apertados que me sentia como uma mulher de 80 anos que nunca saiu da cama. Chorei a cada passo e desmaiei quando dei cerca de oito ou dez. Não iria sequer conseguir pegar no meu filho. Fui levada para as Urgências, onde me disseram que tinha o nível de potássio de um sem-abrigo. Rapidamente fui atendida e despachada, mas, ainda no mesmo mês, seria também diagnosticada com uma deficiência de vitamina D. Não admira que estivesse cansada e fraca como nunca tinha estado!

Outra questão que não gosto de partilhar, mas que acho que é importante falar agora  abertamente é da depressão que me afectou ao longo da vida. Desde os 10 anos, quando aprendi o que era o suicídio pela primeira vez. Assim que soube o que era, eu queria fazê-lo. Embora nunca houvesse uma boa razão para eu sequer pensar nisso (não que haja sempre). Quer dizer, claro que tive alguns relacionamentos maus e amigos traidores, muito drama, mas nada digno de acabar com a minha própria vida. No entanto, porque é que eu não conseguia afastar essa sensação que tinha? Além disso, experimentei a sensação mais terrível que já tinha tido quando tive o meu primeiro ataque de pânico aos 31 anos. Sinceramente, pensei que estava a morrer: a hiperventilar e a ter um ataque cardíaco ao mesmo tempo. Isto aconteceu durante um acampamento de férias com a família que se tornou muito stressante devido à falta de sono. Mas ainda assim, um ataque de pânico? Eu tinha a certeza de que nunca iria acontecer comigo.

Avancemos para este ano de 2011. O meu filho de três anos estava a ter um momento muito difícil na creche. Ele fugia, não ficava quieto, corria, andava de triciclo fora do passeio e tentava atropelar as outras crianças, atirava lama aos miúdos, fugia de mim quando eu tentava apanhá-lo, chutava e gritava quando o tentava pôr dentro do carro, e, pior – fazia cocó e xixi nas calças. Passei muitas noites a chorar, a pensar que tinha errado terrivelmente enquanto mãe. Então, durante a Primavera, fui observar o seu comportamento. Foi tal como os professores tinham explicado, excepto que eu notei uma coisa. Ele tornou-se uma criança totalmente diferente depois de ter comido a sua refeição. Assim, fiz o que qualquer mãe em negação da possibilidade de autismo ou transtorno de défice de atenção faria: fui para casa imediatamente e comecei a pesquisar na internet quais as alergias alimentares que ele poderia ter. E foi então que o encontrei.

Glúten.

Glúten!

Uma simples palavra.

Uma palavra simples que mudou toda a nossa vida.


Eu não conseguia parar de ler. Tudo o que li foi como se o mundo inteiro se abrisse para mim pela primeira vez. Cada palavra que li tornou-se uma resposta para o meu filho. E, ainda mais, uma resposta para mim. Todas estas coisas: défice de atenção, autismo, a doença, a urticária, a infertilidade, as carências de vitaminas, a depressão, e o ataque de pânico - todos eles poderiam derivar de problemas com o glúten! Eu não podia acreditar. Durante 25 anos sofri querendo saber o que havia de errado comigo. Durante 25 anos pensei que nunca haveria uma resposta. E durante 25 anos gastei tanto dinheiro! Fui a médico atrás de médico. Nenhum deles me disse que algo que eu pudesse estar a comer podia ser prejudicial no interior e no exterior. E pior – que me pudesse estar a matar.

Então comecei a pensar sobre a minha família e, olhando para trás, sobre algumas das coisas que a todos nos tinham causado problemas ao longo dos anos. Diabetes, problemas de tiróide, problemas de estômago, cancro, doenças cardíacas, comportamentos autistas, doenças de pele, problemas em ganhar ou perder peso, osteoporose e esquizofrenia - todos eles podem ser ligados à sensibilidade ao glúten, intolerância ao glúten e doença celíaca. Eu fiquei chocada! Então, quase imediatamente, antes mesmo de contactar um médico, coloquei o meu filho a fazer a dieta sem glúten. Duas semanas depois, no entanto, decidi marcar uma consulta para ele ser testado para a doença celíaca.

Quando falei ao médico sobre as mudanças incríveis que o meu filho tinha tido em apenas duas semanas, as minhas esperanças foram frustradas quando soube que ele tinha de voltar a consumir glúten para que o teste fosse feito. Esta foi de partir o coração, porque ele tinha tido muito poucas birras e tinha a certeza que tinha parado de fazer xixi e cocó nas calças. Notei também que o que eu achava que era apenas uma barriga redonda, tinha realmente desaparecido. Ele estava tão inchado há tanto tempo que eu achei, com toda a certeza, que o glúten era o culpado. E, quase no mesmo dia em que voltou a consumir glúten, o inchaço e a obstipação voltaram e as birras seguiram-se pouco tempo depois. Fiquei chocada, portanto, quando os resultados dos testes para a sua doença celíaca deram negativo.

No entanto, eu não acreditei. Mesmo que ele não tivesse a doença celíaca, não havia nenhum médico no mundo que me pudesse convencer de que ele não era sensível ao glúten. O mesmo aplicava-se também ao meu caso. Tínhamos tido demasiados resultados positivos com a dieta sem glúten em nós. Eu não só não tive mais urticária, como também perdi a minha alergia de sempre a animais domésticos! E os pensamentos suicidas e outras questões ficaram num passado que, agora, eu não entendia! Sabia que precisava de fazer mais pelo meu filho, por mim e pela minha família, e obter algumas respostas.

Foi quando encontrei o Enterolab. Não me lembro onde li sobre isso pela primeira vez, mas havia histórias atrás de histórias on-line sobre como uma pessoa que teve resultados negativos para a doença celíaca com o seu médico, teve depois resultados positivos com o Enterolab. Chorei quando li os depoimentos no site. Havia tantas pessoas que soavam exactamente como eu. Foi quando soube que tinha de ser testada por eles. Mas que teste escolher? Havia dois que eu realmente queria - o teste celíaco e o teste de predisposição genética. O problema era: eu não tinha 400 dólares para fazer os dois testes.

Assim, depois de um exame de consciência, optei só pelo teste genético. Sabia que se eu tivesse pelo menos um gene, então havia uma hipótese que o tivesse passado para o meu filho. O teste genético ia ser uma resposta para ele e para mim. Sendo assim, paguei cerca de 200 dólares e o kit de teste foi enviado para a minha casa. Tudo o que eu tinha que fazer era passar o cotonete no interior de cada bochecha, colocar a colheita de volta no recipiente, e enviá-la por correio expresso. Saberia o nosso destino em menos de três semanas.

E, como prometido, a menos de duas semanas a contar a da data em que recebi o meu kit, chegaram os meus resultados. Não só eu tinha um gene para a sensibilidade ao glúten, como também tinha outro para Doença Celíaca. Isso significava que cada um dos meus progenitores me tinha passado um gene que me daria a doença celíaca ou a sensibilidade ao glúten. No que a mim me respeitava, eu não precisava de um teste à doença celíaca. Tenho os genes, o que significa que vou ter a doença em algum momento da minha vida se não a tivesse já. E também significou, definitivamente, que passei um dos genes para o meu filho. Assim, a sensação que tive ao longo deste tempo todo era verdade. E agora tenho paz no meu coração e uma esperança saudável nos nossos futuros. E posso dizer a todas as pessoas que achavam que eu era louca ou que exagerava "eu bem te disse!"

Mas porque estou a partilhar isto tudo? Acho que é porque quero que todos ouçam a minha história, porque sei que há alguém lá fora que é igualzinho a mim. Sei que alguém que lê isto tem sofrido com algumas ou todas as coisas que eu mencionei. Ou talvez haja alguém que está à procura de informações como eu estive, e se depare com as minhas divagações. Lembro-me de ter lido em algum lado que alguns cientistas estimam que 94% da população tem a doença celíaca ou sensibilidade ao glúten. O problema é que eles, simplesmente, não sabem disso ainda. Então, se já se perguntou sobre você ou alguém da sua família, peço-lhe para cuidar da sua saúde. Lembre-se que não há comida no mundo que seja mais importante que a sua vida e a vida da sua família. Obrigada por ler! E, se há algo que eu possa responder ou fazer para ajudá-lo na sua jornada, então não hesite em contactar-me! Namaste!”

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Crepes chineses

Uma ida ao restaurante chinês quando se é intolerante ao glúten não é fácil, por causa do ubíquo molho de soja que contém trigo. É pouco provável que usem a versão Tamari do molho de soja que, não tendo glúten, é muito mais cara do que a versão corrente. Logo, a possibilidade de se ser contaminado é elevada. Daí a minha alegria ao deparar-me com esta receita de crepes chineses que, ainda que não seja fiel ao original, chega bastante perto. É feita com folhas de papel de arroz à venda no Jumbo ou em qualquer mercearia chinesa que fique no eixo Almirante Reis - Martim Moniz. O Tamari vende-se no supermercado do El Corte Inglés ou no Superbio. O recheio pode ser este que vem na receita ou qualquer outro adaptado aos gostos de cada um. E como não é frito, engorda menos.

Ingredientes:
1 chávena de massa vermicelli de arroz
½ colher de chá de óleo de sésamo
¾ chávena de cenoura ralada
½ chávena de cebolinho cortado em tirinhas
½ chávena de castanhas de água, escorridas e cortadas em pedaços pequenos
½ chávena de reventos de bambu, escorrido, cortado em tiras
½ chávena de couve chinesa ralada tipo caldo verde
2 colheres de chá gengibre fresco ralado
1 colher de chá de molho de soja sem glúten
4 colheres de sopa de óleo vegetal
8 folhas de papel de arroz
150 gramas de carne de porco moída

Cozinhe a massa vermicelli durante 3 minutos em água a ferver. Escorra.

Coloque numa tigela grande e misture o óleo de sésamo, os legumes, gengibre, molho de soja e reserve.

Pré-aqueça o forno a 230ºC. Coloque o óleo vegetal numa tigela pequena. Mergulhe uma folha de papel de arroz em água morna por 15 a 30 segundos, até que esteja macia. Em seguida, coloque-a num prato e pincele a sua superfície com um pouco de óleo. Coloque 1 / 8 do recheio na parte inferior do papel de arroz e enrole, formando pequenos “travesseiros”.

Faça o mesmo com as restantes sete folhas. Coloque numa forma coberta com uma folha de papel alumínio untada.

Vai ao forno no tabuleiro inferior durante 15-20 minutos, virando uma vez a meio da cozedura. Sirva com molho de ameixa, molho de peixe ou molho de soja.





segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Livro "Vida sem glúten - (sobre)vivendo em comunidade"

Já tinha visto na site da APC e foi-me agora deixada a sugestão pela simpática Raquel Benati da ACELBRA_RJ. Esta associação publicou um livro que está disponível para download em PDF no seu site, e que é um exemplo de como se pode fazer a nossa parte e ajudar toda uma comunidade a (con)viver melhor com a sua condição de intolerância ao glúten. De depoimentos a receitas e informações várias, este livro é de leitura essencial. Parabéns pela iniciativa!

domingo, 7 de agosto de 2011

Doença celíaca e a infertilidade



Imagem retirada da Net

No seguimento do post anterior com a entrevista da Dra. Vicente e do comentário dela sobre a DC e a infertilidade, aproveito para postar um artigo do site do New York Times em que uma médica responde a uma questão sobre esta ligação. Isto porque nem sempre as pessoas (médicos incluindo) sabem desta causalidade e convém divulgar. Também porque me lembro da história de uma jovem rapariga que, com 24 anos, estava em menopausa precoce, sem razão aparente, e querendo engravidar, não conseguia nem com todos os tratamentos que a sua parca economia familiar lhe permitia realizar. No forum em que li a sua história, queixou-se a dada altura de aftas dolorosas e constantes... fez-se um click na minha cabeça: menopausa precoce e aftas, dois sintomas da DC. Respondi ao seu post e disse-lhe que deveria fazer o despiste da doença, mas respondeu-me a dizer que tinha pesquisado na Net e não lhe parecia que encaixasse no perfil... não sei se chegou ou não a abordar a questão com o médico dela, pois entretanto deixou de aparecer no forum. Eu vou continuar a tentar passar a mensagem.

"Os Alimentos Podem Contribuir para a Minha Infertilidade?
Pelo THE NEW YORK TIMES
Fevereiro 2010

A Dra. Sheila Crowe, professora na divisão de Gastrenterologia e Hepatologia do departamento de medicina da Universidade da Virgínia, aderiu recentemente à Consulta do Blog para responder a perguntas dos leitores sobre a doença celíaca, uma desordem digestiva muitas vezes esquecida que causa danos ao intestino delgado quando o glúten, uma proteína encontrada no trigo, cevada e centeio, é ingerido. Milhões de pessoas têm doença celíaca, mas a maioria não sabe disso, em parte porque os sintomas podem ser tão variados. Aqui, a Dra. Crowe responde a uma leitora preocupada com as ligações entre a doença celíaca e infertilidade.

Doença Celíaca, infertilidade e abortos

P. Pode explicar a ligação entre doença celíaca e infertilidade? É mais provável ser infértil se tivermos doença celíaca?
Melanie

R: Sim, infertilidade ou a incapacidade de engravidar, parece ser mais comum em mulheres com doença celíaca não tratada, com base numa variedade de estudos feitos em diferentes países. Outros problemas ginecológicos e obstétricos também podem ser mais comuns, incluindo abortos e nascimentos prematuros. Homens com doença não tratada podem também enfrentar problemas de fertilidade. Embora estes problemas nem sempre foram reconhecidos como sendo relacionadas com a doença celíaca por médicos e outros profissionais de saúde, esta situação começa a mudar.
Está reportado que mulheres com doença celíaca começam a ter períodos mais tarde e param de menstruar mais cedo do que a média. Elas também sofrem mais frequentemente de amenorreia secundária, uma condição na qual a menstruação começa, mas depois pára. Juntos, esses distúrbios menstruais levam a menos ovulações, o que resulta numa menor probabilidade de engravidar. Factores hormonais e má nutrição também têm um papel nesses problemas.

Para os homens, os problemas podem incluir espermatozóides anormais - como número, a forma alterada, e a função reduzida. Homens com doença celíaca não tratada também podem ter níveis mais baixos de testosterona.

Claro que, para homens e mulheres, a frequência das relações sexuais afecta a fertilidade. Se alguém se sente mal pela doença celíaca não tratada, a actividade sexual pouco frequente pode contribuir para o problema. Um estudo italiano sugere que as relações sexuais ocorrem com menos frequência quando um dos parceiros tem a doença celíaca activa em comparação com casais em que a doença celíaca do parceiro estava a ser tratada.

Quando uma mulher com doença celíaca activa concebe, outros problemas que podem surgir durante a gravidez incluem abortos e bebés pequenos por causa do parto prematuro ou atraso de crescimento in útero. Estas condições são mais comuns em mulheres com doença celíaca não tratada, apesar de os abortos poderem ter muitas causas e ocorrerem em até um quarto de todas as gestações. No entanto, eu recomendaria que se uma mulher tem abortos repetidos ou é incapaz de conceber, deve-se considerar a sua triagem para a doença celíaca pelo teste de anticorpos.

Na verdade, existem muitas causas de infertilidade, abortos e bebés pequenos além da doença celíaca não diagnosticada, e alguns estudos têm falhado em demonstrar que os riscos destes problemas são, na verdade, aumentados pela doença celíaca não tratada. São necessários estudos maiores e mais bem elaborados.

Ainda assim, a minha própria experiência clínica sugere que a infertilidade e os bebés pequenos ou prematuros são mais comuns em mulheres com doença celíaca não tratada do que aquelas sem doença. Tenho a certeza que alguns dos nossos leitores podem compartilhar as suas próprias experiências a este respeito. E a boa notícia é que com o tratamento adequado, com a dieta sem glúten e correcção de deficiências nutricionais, o prognóstico para as futuras gestações é muito melhor."

Estudos sobre a infertilidade e a DC:
Fertility disorder associated with celiac disease in males and females: fact or fiction?
Reproductive Changes Associated with Celiac Disease
Endometriosis, Coeliac Disease May Be Linked
Let's talk about celiac disease and infertility
Doença Celíaca e Infertilidade
Celiac disease: an underappreciated issue in women’s health
Celiac disease linked to miscarriages and preterm deliveries
Increased rates of pregnancy complications in women with celiac disease
Celiac disease and reproductive disorders: meta-analysis of epidemiologic associations and potential pathogenic mechanisms
Non-coeliac gluten sensitivity and reproductive disorders.
Celiac disease and reproductive disorders: meta-analysis ofepidemiologic associations and potential pathogenic mechanisms
Latest Study Says Celiac Disease Reduces Ovarian Reserves

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Entrevista

Publico aqui uma entrevista que li na revista espanhola Factoría Sin Gluten, uma revista para intolerantes ao glúten feita por quatro jovens universitárias, estudantes de Comunicação Social. O primeiro número saiu em Maio, mas o segundo número de Junho ainda não saiu pelo que me parece que vai ser uma revista de número único, infelizmente. Esta entrevista que passa bastante informação foi feita à Dra. Vicente do Hospital de Albacete e que está habituada a diagnosticar e tratar a doença celíaca. Publico no Castelhano original já que traduzi-la seria um esforço inglório da minha parte pois qualquer um de nós percebe facilmente a língua de Cervantes.

“La Entermedad de las Bolsas del Corte Inglés"
Cuando la Doctora Vicente trabajaba en el hospital de Madrid llamaban así a la enfermedad ya que conllevaba todo tipo de sintomas, al igual que las compras en El Corte Inglés.

Cómo surge la enfermedad?
La gente que la padece está predispuesta genéticamente desde el momento en el que nacen, y en un momento de la vida en el que se introducen los cereales se produce una reacción frente a ellos a la que determinadas personas no están predispuestas. AI absorberlos se produce una reacción de la mucosa intestinal y ese dano es el que produce los sintomas que presenta una enfermedad celíaca, que clásicamente era la diarrea. Cuando yo lIegué a Albacete hace 15 anos, en el primer mes que pasé la consulta diagnostiqué 8 pacientes, en esa época eran muchisimo, estaban etiquetados con enfermedades extranas y nadie sabia lo que tenían. Hoy en dia, gracias a que se hace screening, se diagnostican enfermedades que todavía no han dado síntomas. Sí no se lIeva una correcta dieta, esto puede desembocar en un linfoma.

Sí un celiaco consume glúten, cuánto tiempo puede transcurrir para que aparezcan este tipo de enfermedades malignas?
Habitualmente se diagnostica a los 18 meses, cuando se empieza a introducir el gluten a los bebés. Pero yo tengo enfermos de hasta 72 anos. Porqué a un nino se le diagnostica a los 18 meses y otra persona puede ingerir gluten hasta los 82 anos? Se piensa que es porque en el mecanismo de desarrollo de la enfermedad hay varios períodos: el gluten hace dano directo a la mucosa intestinal (toxicidad directa), a la que le siguen unos cambios inmurológicos que producen, en segunda instancia, una alteración intestinal que conlleva la enfermedad. Otra teoria es que, hay determinados exógenos que desencadenan la enfermedad con un soporte genético, que siempre están ahi, y se piensa que puede haber una infección que despierte la enfermedad y la haga latente.

Podría entonces darse el caso de que una persona esté siempre consumiendo gluten y, de repente, le aparezca la enfermedad y no haya sufrido danos?
Claro, un buen ejemplo son los paciente de 82 anos, son relativamente frecuentes. En el adulto (se considera adulto una persona por encima de los 14 anos), existe la misma prevalencia de la década de las enfermedades, lo mismo de 20 a 30 que de 30 a 40... aumentando la prevalencia de entre 20 a 30 anos. Se hizo un estudio en los colegios de aquí y salieron muchos celiacos. No siempre se hace la prueba a los ninos, sino en las circunstancias en las que sabemos que el síntoma se asocia a la enfermedad celíaca, por ejemplo en los diabéticos, se estudia siempre a los ninos con Sindrome de Down y también a los parientes más cercanos, y en la dermatitis espiciforme, que es una lesión dérmica donde las extremidades pican mucho,  y no se cura con el tratamiento normal que le manda el dermatólogo. En cuanto se cambia su dieta, los sintomas comienzan a mejorar.

Y qué otras enfermedades se asocian?
Se asocia con casi todo. Se ha visto con infertilidad. Las parejas que no puede tener hijos deben estudiar la posibilidad de que exista la enfermedad. Alteraciones de las siques, demencias, alteraciones del comportamiento, determinadas hepatitis, alteraciones dermatológicas, y demás tipos de alteraciones. Cuando yo trabajaba en Madrid lo Ilamábamos la "enfermedad de las bolsas del Corte Inglés" porque es una enfermedad que conlleva de todo.

En Albacete, en qué ano se comenzaron a diagnosticar los primaros celiacos?
Cuando yo lIegue en 1995, ya existían casos, pero se inició en esa época, porque la gente se comenzó a concienciar. En gente joven, con anemia o falta de hierro, que en mujeres se asocia a menstruaciones abundantes y se esconden detrás de una anemia aumentada, se recomienda hacer la prueba de la cellisquea. A partir de esto hubo una concienciación general por parte de los médicos y nos dimos cuenta de que la enfermedad celiaca podia ser la causante de un gran número de enfermedades desconocidas. Se comenzó entonces con los screening, donde encontramos enfermos que no tienen síntomas. Cuando a un celiaco no le hace efecto la dieta sin gluten, son casos muy severos que suelen ir acompanados de un linfoma.

Se puede dar el caso, aI igual que sucede con la lactosa, de que un nino celiaco pueda volver a tolerar el gluten?
No, es para toda la vida.

De dónde viene la palabra "celiaco"?
La diagnosticó un holandés pediatra que en la Segunda Guerra Mundial observó que sus ninos con diarrea mejoraban coincidiendo con el desabastecimiento de cereales, es decir, desaparecia la diarrea. Pero cuando la cosa comenzó a mejorar y volvieron a consumir glúten, Ia diarrea volvió. Este fue el tema de su tesis doctoral, posteriormente vio que los cereales les hacían dano en la mucosa intestinal, describiendo así el sintoma caracteristico.


EI hecho de que un celiaco no tome pan, supone una falta de nutrientes para el cuerpo?
No, porque no puede tornar unos cereales pero si otros, puede tomar harina de arroz. EI cuerpo no sufre ninguna falta de nutrientes, ya que el organismo se adapta a la nueva dieta del celiaco.







quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Blondie

Não, não é um post sobre os Blondie. Descobri que, como tudo o resto na vida, também na culinária existe um yin e um yang: o tão conhecido Brownie que poderia ser o masculino Yang, tem um Yin, uma loira delícia que dá pelo nome de, como já devem ter imaginado, Blondie. Nunca tinha ouvido falar neste bolo até há bem pouco tempo, mas parece que também aqui há uma grande "mulher" por trás de um grande "homem" . O Blondie é o Brownie sem o chocolate, ao qual se pode juntar o sabor que se pretender, baunilha, canela... a receita que encontrei é a do Blondie com maple syrup (xarope de àcer), aquele líquido que se põe nas panquecas e que parece mel (à venda no Celeiro). A mistura do maple syrup com o açucar mascavado dá-lhe um sabor acentuado a fudge, ou caramelo de nata, como aqueles que se ia comprar a Espanha nos anos 80. Só para quem gosta destes sabores... a receita é da Elisabeth Barbone de Gluten Free Baking.

Ingredientes:
140 gramas farinha de arroz
45 gramas Maizena
45g farinha de arroz glutinoso
1/2 colher de chá de sal
1/2 colher de chá de fermento
1/2 colher de chá de goma xantana
115 gramas manteiga sem sal a temperatura ambiente
150 gramas açucar mascavado escuro
1 ovo tamanho L
175 gramas de maple syrup (xarope de ácer)
1/2 colher de chá de essência de baunilha
Pepitas de chocolate branco (opcional)

Pré-aqueça o forno a 175 º. Unte uma forma tamanho 23x23 (ou 20x26).

Numa tigela misture as farinhas, o sal, o fermento em pó e a goma xantana. Reserve.

Noutra tigela, bata a manteiga e o açúcar mascavado até formar uma pasta grossa. Adicione o ovo e misture até ficar bem combinado.

Adicione agora o conteúdo da primeira tigela. Misture até ficar homogéneo. A massa estará um pouco seca. Junte o xarope de ácer e a baunilha. Misture até a massa estar leve e fofa.

Espalhe a massa uniformemente na forma. Coloquei por cima da massa pepitas de chocolate branco, para decoração. Coza até dourar, cerca de 25-30 minutos. Retire do forno e coloque sobre uma rede para que arrefeça completamente. Quando o bolo estiver frio, corte em nove quadrados.




terça-feira, 2 de agosto de 2011

Um testemunho

Imagem retirada da Net
Acompanho com frequência o trabalho da APC e da APC Jovem que, dentro das naturais limitações que têm, fazem um trabalho meritório. Logo, é com alguma tristeza que vejo a pouca adesão à maioria dos eventos que organizam. Lamento que muitas pessoas se acomodem a esta "doença", às condições que neste momento existem em Portugal, à espera que algo aconteça. É como naquela canção dos Deolinda, "vão andando que eu já lá vou ter" que tão bem define o nosso povo. Acredito que se cada um fizer a sua parte, a situação de todos vai melhorar exponencialmente.

Por isso é que criei este blog, para fazer a minha parte. Para alertar, para divulgar, para ajudar, ainda que tenha de fazer alguma ginástica na gestão do meu tempo. Como a Heidi do blog "Adventures of a Gluten Free Mom" que faz um trabalho fantástico com as receitas e artigos que publica e que faz a parte dela com uma família de quatro em que todos são intolerantes ao glúten. Ela publicou a sua história para ajudar aqueles que lutam com sintomas que ninguém explica e que se podem rever no que ela passou. Assim traduzi para Português este post dela para repassar a informação por este lado do Atlântico. É um post longo, mas que vale a pena ler para melhor entender esta condição camaleónica que é a intolerância ao glúten.


"Com o Mês para a Consciencialização da Doença Celíaca a chegar ao fim, pensei que deveria compartilhar mais da minha história pessoal. Tinha a intenção de fazer isso há já algum tempo, mas, para ser honesta, regressar atrás no tempo é emocionalmente difícil. Não posso dizer quantas vezes tentei escrever este post, só para deparar-me com a necessidade de me afastar por causa da mágoa sempre presente sobre o que nunca teve de ser, caso eu tivesse recebido um diagnóstico adequado assim que comecei a apresentar os sintomas de sensibilidade ao glúten em criança... e começar a comer os alimentos certos.


O que finalmente me levou a reunir coragem para reviver o meu passado foi uma dúzia de e-mails que recebi recentemente de leitores que perguntavam sobre dermatite herpetiforme (também conhecida como doença de Duhring, doença de Brocq-Duhring ou Dermatite Multiforme). Então decidi compartilhar a minha história com as comichões, erupções cutâneas, picadas, bolhas, assim como os meus outros sinais e sintomas “atípicos” de intolerância ao glúten. Aviso: este é um longo post.


Quando digo a palavra atípico, não pretendo sugerir que estes são sintomas incomuns, na verdade, suspeito que eles podem ser mais comuns do que os clássicos sintomas gastrointestinais que a maioria das pessoas pensa quando se trata de doença celíaca e sensibilidade ao glúten não-celíaca.


Também acredito que os sintomas "atípicos" são uma das principais razões pelas quais 95% dos estimados 3 milhões de americanos que vivem com a doença celíaca não são diagnosticados. Acresce a isso o facto de que pode entrar em qualquer escritório médico especialista neste país e, sem dúvida, encontrar pacientes cujo problema de saúde subjacente é o glúten, seja na forma de doença celíaca ou sensibilidade ao glúten não-celíaca. Se os médicos não fossem tão apressados para tratar qualquer um dos 300 ou mais sinais, sintomas e doenças causadas pela sensibilidade ao glúten (muitas vezes com medicamentos perigosos que só irão perpetuar o problema), e ter tempo para praticar Medicina, buscando a causa raiz subjacente do sintoma, o mundo poderia ser diferente! Mas estou a afastar-me do meu tema.


Como já mencionei muitas vezes antes, o meu diagnóstico de doença celíaca em 2005 foi um choque total e absoluto. Eu não estava activamente à procura  de um diagnóstico que explicasse um grave e crónico desconforto gastrointestinal, porque eu não tinha nenhum. Não estava à procura da causa da anemia crónica por deficiência de ferro ou qualquer outro problema de má absorção comummente associado à doença celíaca não diagnosticada, porque eu não tinha nenhum (que eu saiba). À parte o facto de ter acabado de engordar quarenta quilos depois de a minha tiróide ser retirada devido à doença de Graves, continuava a sentir-me o mesmo eu "normal" de sempre: doente, cansada e mal-humorada!

A parte cansada e mal-humorada da minha personalidade poderia facilmente ser explicada pelo facto de que eu tinha acabado de ter um bebé (o Sam), mas a verdade era que eu sempre fui mal-humorada. Desde muito cedo tive problemas de comportamento e era absolutamente agressiva às vezes. Não vos quero aborrecer com os detalhes (muitos deles não são bonitos), mas, escusado será dizer, os meus anos de adolescência foram emocionalmente e fisicamente voláteis.

Percebam que eu nunca fui maliciosa, na verdade, fui exactamente o oposto. Eu era extremamente gentil, mas era propensa a explosões emocionais e físicas que, muitas vezes, fizeram a minha mãe acusar-me de tomar drogas (não tomava). Após cada um dos meus muitos "episódios", eu ia para o meu quarto muitas vezes e chorava durante horas, repreendendo-me pelo meu comportamento deplorável, ponderando sobre o que haveria de errado comigo (a frase favorita da minha mãe para mim enquanto crescia: "Que raio é que te acontece, não te educamos para ser assim! "). Ela estava certa, eu não cresci num lar desfeito, não houve qualquer abuso físico e eu não tomava drogas... o meu comportamento na época não fazia muito sentido realmente .


A única coisa que poderia contribuir para os meus problemas comportamentais (pois eu não era simplesmente a "ovelha negra") foi o facto de eu ter tido uma montanha de "estranhos" problemas de saúde em criança, todos os quais tiveram um impacto extremamente negativo na minha auto-estima, e assim, pensava eu, contribuíam para as minhas grandes variações de humor.


Eu nasci com um defeito congénito chamado Fenda do Quisto Branquial e tive a primeira de 12 grandes cirurgias ao meu pescoço quando tinha dois anos de idade. Qualquer uma destas cirurgias pode ter sido o gatilho da minha doença celíaca. Basicamente, passei a primeira década da minha vida a acreditar que era metade sereia.


- Também sofria de eczema severo e os meus pais tinham de aplicar pomada nos meus pés e cobri-los com sacos de plástico (para aí manter a medicação) todas as noites durante quase 14 anos. Era totalmente humilhante e fui gozada sem piedade por causa da cicatriz no pescoço e os pés inflamados, vermelhos e rachados. Esses foram apenas o começo dos meus problemas de saúde peculiares.

- Sempre tive aftas (úlceras aftosas) enquanto miúda, úlceras dolorosas na boca que geralmente se descobrem depois de beber um copo de sumo de laranja e a boca ficar a arder. Lembro-me do meu pai pedir desculpas por me ter passado o "gene da afta" enquanto esfregava o remédio de pó de alumínio na minha ferida (“Pai, que raio, isso arde!”, dizia eu).

- Sofria de cãibras musculares recorrentes nos gémeos (ou, como eu lhes chamava, Cavalos do Charley). Recordo vividamente o acordar a meio da noite depois do meu gémeo se enrolar e gritar em agonia até o meu pai vir a correr, e segurar o meu pé para esticar a minha perna. Esta ficaria dorida durante dias e a minha mãe enchia-me de bananas (assumia que uma deficiência de potássio causava as cãibras musculares).

- Quando estava na escola primária, a minha mãe recebeu um telefonema do meu professor que estava angustiado por causa das minhas interrupções diárias na sala de aula. Aparentemente, eu era tão hábil a cair em devaneios que começava a cantar... a meio da aula (uma candidata ao Glee?). Sempre lutei com problemas de atenção e ler um livro era uma batalha sem fim para passar da primeira página. Esquecia o que tinha lido a meio da frase, e, assim, tinha que ler as linhas, uma e outra e outra vez. Espanta-me até hoje como obtive um diploma universitário, mas um efeito colateral positivo de todos os meus problemas de saúde em criança foi uma recusa obstinada em nunca desistir. Quando fiz 34 anos, fui finalmente diagnosticada com Desordem de Défice de Atenção (DDA) para Adultos. Para divulgar a ligação do glúten com esta desordem, a Dr. Vikki Petersen escreveu um artigo chamado Sensibilidade ao Glúten Causa DDA e Esquizofrenia (em que partilha informações do Dr. Peter Green).

- Quando eu tinha 10 anos, tive a minha primeira consulta com um alergologista, que descobriu que eu tinha graves alergias ambientais (incluindo a 26 variedades de gramíneas), bem como sinusite crónica. Foram-me prontamente receitadas vacinas para alergias e tomei as primeiras dezenas de esteróides orais e nasais e antibióticos. Tive de tomar este cocktail de drogas danosas para o sistema digestivo quatro a cinco vezes por ano durante os 27 anos seguintes, até à minha recente cirurgia sinusal em Fevereiro de 2011. (Nota interessante: fui diagnosticada com uma alergia IgE ao milho no Outono de 2010 e nas poucas vezes que fiquei exposta ao milho desde a minha cirurgia sinusal, a minha reacção foi congestão nasal grave!).

- Quando eu tinha 12 anos, comecei a ter o período, que era extremamente pesado e terrivelmente doloroso, ao ponto de ter que faltar desde dois a quatro dias de aula por mês... Deitada na cama, com uma botija de água. Fui diagnosticada com dismenorreia e colocada em altas doses de anti-inflamatórios prejudiciais ao aparelho digestivo para controlar a dor.

- Aos 14 anos, comecei a notar o que pareciam ser marcas de arranhões desagradáveis nos meus joelhos, que iam e vinham ao longo dos 20 anos seguintes. (Vou regressar a isto num minuto).

- Quando fiz 15 anos, retirei as amígdalas enquanto parte da minha batalha em curso com a Fenda do Quisto Branquial e as infecções crónicas do tracto respiratório. Uma semana depois, tive uma hemorragia e o cirurgião teve que cauterizar a minha garganta seis vezes antes de o sangramento parar (talvez o resultado de uma deficiência de vitamina K?). Ainda consigo sentir o aroma da minha carne a queimar. Tinha perdido tanto sangue que foi recomendado que recebesse uma transfusão, mas estávamos em 1989 e a epidemia da SIDA enchia de medo o coração de muitos, e a minha mãe recusou a transfusão. Em vez disso, fui levada de cadeira de rodas para o carro porque estava fraca demais para andar. Passei o Verão inteiro em casa, observando o meu lento retorno de tez de fantasma branco a uma cor normal.

- Quando tinha 16 anos, os meus pais permitiram-me ir de férias de inverno para a Flórida com algumas das minhas amigas do liceu. Depois de um dia no mar, apareceu-me uma erupção cutânea que consistia de placas lisas, tipo escamas, por todo o meu torso, braços e couro cabeludo; parecia um leopardo manchado! Imaginem uma rapariga de 16 anos na praia com as suas amigas de biquíni a namoriscarem os rapazes giros e ela sentada à margem de calças de ganga e uma camisola de gola alta? Mais valia terem-me colado um sinal de “Tótó” na testa! Depois de voltar para casa, fui diagnosticada com psoríase e passei um ano em terapia de luz UVB antes de entrar em remissão espontânea.

- Quando fiz 18 anos, comecei a acordar a meio da noite com uma dor insuportável na minha cabeça, era tão intensa que perdia temporariamente a visão de um dos meus olhos. Depois de uma ressonância magnética, o médico diagnosticou-me com cefaleias em cluster e prescreveu mais anti-inflamatórios poderosos para a dor.

- Quando eu tinha 25 anos, mudei-me para o Novo México e as minhas alergias ambientais pioraram, então fui a um alergologista novo, que, sem o meu conhecimento, decidiu testar-me para algumas alergias alimentares. Imaginem a minha surpresa no ano passado (depois de obter uma cópia do meu historial médico) quando descobri que eu tinha testado altamente positivo para alergia ao trigo (IgE) 11 anos antes... e o meu médico nunca me disse! Seis anos mais tarde, eu seria diagnosticada com doença celíaca, depois de perder a minha tiróide. Querem um conselho de amigo? Peçam SEMPRE uma cópia dos testes de laboratório e registos médicos, especialmente se estiverem a ser acompanhados por vários médicos especialistas. A Doença Celíaca é sistémica e pode ser difícil de diagnosticar. Eu estive em vários especialistas enquanto crescia, um alergologista, um dermatologista, um neurologista, um otorrinolaringologista (cirurgião dos ouvidos, nariz e garganta), um ginecologista e um endocrinologista... Mas nunca fui a um gastrenterologista).

- Quando tinha 29 anos e estava grávida do meu primeiro filho, comecei a sangrar no 6 º mês de gravidez e fui colocada em repouso durante o tempo que faltava. Sabendo o que sei hoje sobre problemas de doença celíaca e da fertilidade, fico muito feliz que o Sam esteja vivo hoje.

- Tinha 31 anos quando finalmente fui diagnosticada com doença celíaca (através do exame de sangue anti-gliadina, após complicações que surgiram a seguir à minha ablação da tiróide). Infelizmente, comecei a dieta sem glúten (após quatro "voltas de despedida" a todos os meus restaurantes favoritos) durante seis meses e assim que os meus níveis de TSH ficaram normais e o meu primeiro Dia De Acção de Graças sem glúten estava ao virar da esquina... Descarrilei e ingeri glúten pela primeira vez. Eu não sabia muito sobre a doença celíaca naquela altura (quem sabe quando se é diagnosticado pela primeira vez?) e esperava pagar sérias consequências físicas por comer uma refeição cheia de glúten, mas, para minha surpresa, nada aconteceu. Sem inchaço, sem dor de barriga, sem diarreia, nada. Isto plantou a semente da dúvida na minha cabeça sobre o diagnóstico (eu não tinha feito os exames de sangue actualmente recomendados para a doença celíaca, nem tinha ainda feito a biopsia).


Os três anos que se seguiram são um borrão. Lutei com o meu diagnóstico de doença celíaca mais do que com qualquer outro diagnóstico médico que já tinha recebido. Fiquei com raiva, senti pena de mim, estava deprimida, estava sozinha e estava em negação profunda. Não queria a doença celíaca, mas mais do que isso, eu não queria a dieta sem glúten! Perdi tudo o que tinha conhecido até aquele dia fatídico em Abril de 2005, perdi amigos que deixaram de me convidar para jantar, perdi família que não entendia o que se estava a passar comigo (e que, definitivamente, não entendiam a minha nova dieta "complicada"), mas, acima de tudo, eu perdi-me. Perdi as memórias que estavam inevitavelmente rodeadas por comida com glúten, nunca mais iria cozinhar jantares de Acção de Graças ou fazer filhoses com o meu pai na véspera de Natal, algo que eu fazia desde criança. Não quis mais comer os meus pratos favoritos cozinhados pela minha mãe (esta teve momentos mais difíceis do que eu quando se tratou da dieta SG). Em certo sentido, era como se eu me tivesse tornado órfã, apesar de os meus pais ainda estarem vivos. Fiz o luto pelo que tinha perdido (o que já não acontece), tanto assim que os meus mais novos e melhores amigos eram os anti-depressivos e o "Sr. Cabernet Sauvignon”. Infelizmente, foi uma amizade unilateral com este senhor, porque estava a apunhalar-me pelas costas destruindo o meu revestimento intestinal!

Em 2007, o meu tio querido, que era como um segundo pai para mim, morreu de linfoma não-Hodgkin, apenas nove dias depois de ter sido diagnosticado. Por esta altura, eu estava um pouco mais informada sobre a doença celíaca e sabia que este é um dos cancros em que os celíacos têm um risco aumentado. Lembro-me de implorar para que testassem o meu tio para a doença celíaca e a resposta foi algo semelhante a "sua tonta, nós estamos a tentar salvar a vida deste homem e tu estás preocupada com a comida?"

Nunca testaram o meu tio, logo nunca saberei, mas consegui descobrir que ele sofreu de um caso grave de asma quando criança (ao ponto de ter que deixar a sua família no Minnesota para viver com os seus avós no Arizona, pensando que o ar seco iria aliviar a asma). Também descobri que ele era alérgico a leite em criança e tinha um desejo insaciável de pão na vida adulta. Inclusive, foi ao médico cerca de dez anos antes da sua morte, a queixar-se de uma grande distensão abdominal depois de comer. O médico riu e disse que ele só tinha "síndrome do cinto apertado", e para desapertar o cinto depois de comer. Morreu dez anos depois aos 69 anos, deixando para trás todos aqueles que o amavam tão ternamente.


Alguém poderia pensar que, depois de testemunhar em primeira mão como eu poderia acabar se não levasse a dieta sem glúten a sério, teria imediatamente mudado o meu caminho depois da morte do meu tio. Infelizmente, não foi esse o caso.

Ironicamente, foi a caminho do Wisconsin para o memorial do meu tio, vários meses depois, que eu comecei a minha maratona final de aldrabice. Racionalizando, acho que a última coisa que eu queria pedir à minha tia era uma refeição sem glúten na recepção, depois de ter acabado de espalhar as cinzas do marido no seu lago preferido para a pesca. Comecei então a comer glúten todos os dias, três refeições por dia (sem efeitos nocivos) durante sete semanas até o meu dia do julgamento finalmente chegar.


Acordei numa manhã de Agosto de 2008 coberta de bolhas espalhadas por todo o couro cabeludo, tronco, nádegas e pernas, e que picavam intensamente. A comichão era tão severa que fiz uma contusão nas costas do tamanho de um prato (pedi ao meu marido que a medisse) ao tentar aliviar a dor numa maçaneta. Forte como era a dor, não era nada comparado ao que eu experimentei emocionalmente quando me olhei ao espelho e vi o que eu só poderia descrever como um "leproso" a olhar para mim. (Uma história engraçada: depois de o meu médico me dar uma receita para Dapsona, uma droga poderosa comummente usada para tratar a dermatite herpetiforme, pesquisei na Net e descobri que era também usada para tratar a lepra! Nunca comprei o medicamento).


Caí no chão da casa de banho, nua em todos os sentidos da palavra, enrolada na posição fetal, e implorei a Deus para me tirar a dor. Eu sabia o que era (apesar de ainda ter que fazer uma biopsia da pele), e num lugar dentro de mim, surgiu uma voz que nunca reconheceria como minha: "JÁ PERCEBI! Eu nunca mais vou comer glúten! Se o glúten pode fazer isto ao exterior do meu corpo... o que raio me fez internamente? "


Lembram-se dessas marcas desagradáveis que mencionei acima e que se tinham começado a formar nos joelhos quando eu tinha 14 anos? Bem, os "arranhões" eram restos de dermatite herpetiforme (depois de romper a bolha ao coçá-la). Foi um caso bastante leve até ao surto final; na verdade, foi uma erupção cutânea sazonal durante muitos anos, só aparecendo nos meses de Verão; o meu dermatologista na infância tinha-a até atribuído à minha alergia às gramíneas... e até à humidade! (Nota interessante sobre o meu dermatologista, Dr. Frank Yoder. Foi um dos médicos que descobriu que a perigosa droga Accutane* era eficaz para o acne, uma droga que o meu pai e duas irmãs tomaram durante anos - é irónico que o Centro da Doença Celíaca da Universidade de Chicago tenha descoberto recentemente que o Accutane pode ser um gatilho para a doença celíaca em pacientes geneticamente susceptíveis!).

Tal como as outras manifestações de sensibilidade ao glúten, a dermatite herpetiforme pode ser peculiar. Podemos pensar que se tivermos esta condição e estivermos a comer uma dieta cheia de glúten, então as erupções estarão sempre presentes mas, infelizmente, nem sempre é o caso. Suponho que a razão pela qual o meu dermatologista não conseguiu diagnosticar correctamente a minha dermatite herpetiforme foi devido ao facto das bolhas cheias de líquido da DH nunca perdurarem o tempo suficiente para eu levá-las a uma consulta (uma espera de dois a três meses para marcar consulta também não ajudava!). Em vez disso, o que restava eram arranhões coloridos de vermelho escuro / roxo. Só quando tive o meu grande surto de 2008, é que finalmente fiz uma biopsia da pele que provou a DH de uma vez por todas (nessa altura, eu já tinha feito duas biopsias intestinais positivas para a doença celíaca).

Três meses depois, o meu filho de cinco anos de idade foi diagnosticado com a doença celíaca através de um exame de sangue, mas a sua biopsia foi negativa. Como podem ver pelas minhas lutas ao longo da vida, foi fácil tomar a opção de pô-lo a fazer a dieta sem glúten de imediato. Talvez eu tenha feito muitas escolhas mal informadas para mim nos anos seguintes ao meu diagnóstico, mas nunca faria isso com o meu filho, que tem a vida inteira pela frente.


No final, esta decisão seria o meu maior presente, não só para ele, mas para toda a minha família (o meu marido e filho mais novo têm sensibilidade ao glúten não-celíaca). O presente da boa saúde, alimentação fenomenal e uma apreciação real pela diferença entre alimentação, saúde e alegria."

* Roaccutan, em Portugal.

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