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terça-feira, 31 de maio de 2016

Má absorção de vitamina B-12

Imagem retirada da Net
Para fechar o Mês do Celíaco, deixo um relato na primeira pessoa de um diagnóstico de doença celíaca feito por uma médica de Urgência americana: é um exemplo de diagnóstico que todos os celíacos merecem, pois a médica em questão foi para além das evidências e pensou "fora da caixa". A maioria dos médicos perante um cidadão chinês (país onde os casos de DC são raros ou eram, até há pouco, considerados raros) com falta de vitamina B-12 poderia ter-se limitado a prescrever suplementos. Mas ela não o fez. E isto é o que precisamos, médicos que vejam para além das anemias, das tiroidites, do excesso de peso ou da falta de sintomas gastrointestinais, e rastreiem para doença celíaca. Aos poucos, um dia, chegamos lá.

"Medicina de Urgências: queda no chuveiro leva a dieta sem glúten

(...) Um jovem estudante universitário entrou no nas Urgências com dor no ombro depois de cair no chuveiro. Estes são lugares habituais em quedas, por isso, não era uma situação incomum. No início. Disse então que tinha perdido o equilíbrio depois de fechar os olhos e inclinar a cabeça para trás para retirar o champô do cabelo. Ele caiu e bateu na parede com o ombro. Para um jovem de 20 anos, manter o equilíbrio normalmente não é um grande desafio.

Enquanto disse que o ombro lhe doía um pouco, mostrou-se mais preocupado com a dormência nos pés, que, juntamente com fraqueza generalizada e fadiga ao longo das últimas semanas, levou-o a visitar o seu médico para fazer exames. Os exames de sangue mostraram que o paciente tinha uma anemia leve, o que levou o médico a verificar o seu nível de vitamina B-12, que estava baixo. O médico tinha começado então a fazer mais testes para descobrir a causa da deficiência de B-12. (...)

(...) Assumindo que a dormência nos pés do meu paciente estava, de facto, relacionada com a sua deficiência de vitamina, a sua condição provavelmente melhoraria à medida que os níveis de B-12 normalizassem. O próximo passo era determinar porque o seu nível estava tão baixo.

Como a sua ingestão de B-12 era suficiente, a segunda causa provável era pouca absorção de B-12 no estômago ou intestinos. A anemia perniciosa, uma das causas mais frequentes de baixa B-12 por má absorção, é marcada pela ausência de uma proteína no estômago. Os pacientes geralmente são mulheres de ascendência do Norte da Europa e, mais frequentemente, com idade superior a 60 anos. Uma vez que o meu paciente era um homem asiático de 20 anos de idade, a anemia perniciosa seria um tiro no escuro. Outras possibilidades eram a doença celíaca, HIV, inflamação crónica do pâncreas e até mesmo um tipo de infecção por ténia.

Quando perguntamos mais sobre a sua recente história dietética, o meu paciente disse que estava nos Estados Unidos há seis meses com um visto de estudante. Apesar de ter aderido a uma dieta mais tipicamente chinesa, rica em peixe e arroz, recentemente tinha vindo a comer muita pizza. Esta está cheia de glúten, será que ele poderia ter a doença celíaca? É uma condição auto-imune que faz com que o corpo ataque as células que absorvem o glúten no intestino delgado. Embora mais comummente associado com algum tipo de desconforto gastrointestinal, tais como diarreia ou cólicas abdominais, a doença celíaca pode ter poucos ou nenhum sintoma. Também pode prejudicar a capacidade do intestino em absorver a vitamina B-12.

As pessoas de ascendência chinesa, normalmente, não têm doença celíaca, mas alguma literatura recente sugere que esta pode ser mais comum do que pensávamos.

Entretanto, os raios-X do ombro do meu paciente estavam normais, e diagnostiquei uma separação menor no ombro, que não requeria cirurgia.

(...) Por fim, o paciente reuniu-se com um gastrenterologista que lhe diagnosticou a doença celíaca, e ele pode verificar o retorno dos níveis de B-12 ao normal quando eliminou o glúten da sua dieta. Posso informar que a dormência está a melhorar também."


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Contar ou não?

Imagem retirada da Net
Um post recente no blog Anti-Wheat Girl chamou-me à atenção um artigo de opinião que saiu no jornal Washington Post em que uma mãe relata como optou por, durante um mês, não contar à filha de 11 anos que tinha sido diagnosticada com doença celíaca. A criança já tinha um diagnóstico de tiroidite de Hashimoto e a mãe não a queria “sobrecarregar”. Aliás, os pais tentaram encontrar um médico que lhes dissesse que podiam esquecer o diagnóstico de doença celíaca. Felizmente, ninguém lhes disse isso.

Contudo, não partilharam o resultado da biópsia com a filha inicialmente porque esta estava a frequentar um campo de férias. Decidiram contar-lhe quando regressasse, mas entretanto foram passar uma temporada à praia e continuaram sem lhe contar, isto enquanto a viam ingerir glúten despreocupadamente. Foi na viagem de regresso que a menina perguntou pelo resultado da biópsia e os pais lhe explicaram o resultado. Surpreendentemente para os pais, a criança aceitou bem o diagnóstico e aderiu à dieta sem problemas.

Enquanto resisto ao impulso de criticar estes pais, tento compreender: a criança, aparte dores de barriga ocasionais, era assintomática. Eles não tinham feito o percurso de muitos pais que vêm os filhos a adoecerem dia após dia, sem resposta por parte dos médicos; nesta situação, quando aparece o diagnóstico de doença celíaca, o que domina é a sensação de alívio, porque já tantos cenários terríveis lhes tinham ocorrido. Além disso, ela já tinha outra doença auto-imune que, apesar de controlada, gera sempre preocupações. Como diz a mãe a dada altura, ”Eu não queria lidar com isso. Para além da minha auto-comiseração, sentia-me mal em pensar como a minha filha, sendo tão nova, teria que estar hiper-vigilante acerca da sua saúde e dieta”. 

No entanto, o facto é que enquanto estivesse a comer glúten, apesar de uma aparência saudável, o seu intestino deteriorar-se-ia cada vez mais. Até que ponto é que eles iam “esquecer” o diagnóstico? E como é que aguentavam vê-la comer glúten quando sabiam o mal que lhe fazia? Considerando que se trata de uma criança de 11 anos, capaz de compreender e gerir as consequências do seu diagnóstico, ainda se compreende menos que os pais tomassem esta decisão por ela. Especialmente, como se veio a verificar, quando não havia razões para dramatizar a situação.

Aceito, apesar de ter dificuldades em compreender, que um adulto queira ignorar um diagnóstico de doença celíaca (até conheço alguns). Que pais o façam já não consigo aceitar. Por mais que custe “digerir” um diagnóstico de doença celíaca, principalmente com o impacto que ainda tem na vida social dos seus portadores, é essencial, após um compreensível período de luto pela realidade que já não o é, focarmos os seus aspectos positivos: a dieta recupera a saúde sem necessidade de medicamentos e pode evitar o desenvolvimento de outras doenças a longo prazo. Que pai/mãe não deseja isso para a sua criança?

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Fora de casa

Hoje, fui eu a convidada no blog Calma Com o Andor em resposta a um desafio da sua simpática (e democrática) autora, que deu voz mesmo a quem não concorda exactamente com ela (também não divergimos assim muito). Obrigada NM!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

As doenças reumatológicas e a sensibilidade ao glúten

No post anterior abordei a questão dos sintomas músculo-esqueléticos na doenca celíaca; o post de hoje segue o mesmo tema, mas aborda a questão das doenças reumatológicas na ausência de doença celíaca. Como já sabemos, o problema com o glúten não se esgota na doença celíaca- existe ainda a sensibilidade não celíaca ao glúten e a alergia ao trigo. 

O artigo de hoje é um estudo espanhol publicado na revista Reumatologia Clínica e, sendo algo extenso, extraí daí alguns casos de pacientes que melhoraram significativamente das suas queixas, tendo despistado negativamente a doença celíaca, com a dieta isenta de glúten. É um artigo um pouco técnico, mas quem sofre destas doenças conseguirá certamente reconhecer os exames abordados.

"Sensibilidade não celíaca ao glúten e espondiloartrite

Imagem retirada da Net
Caso 1: mulher de 28 anos, com dor inflamatória crónica nas costas e fadiga com 10 anos de evolução. As radiografias simples mostraram sacroileíte bilateral evidente. Na RM da sacroilíaca foram observados os seguintes sinais de sacroileíte: Esclerose, marcadas erosões periarticulares e edema ósseo e bilateral. O B27 foi positivo, de modo que o diagnóstico da espondilite anquilosante foi estabelecido. Tinha uma irmã com DC. Não tinha quadro digestivo associado. A sorologia para DC com teste de despistagem de anticorpos transglutaminase e anti-peptídeos desaminados da gliadina, tanto IgG como IgA, foi negativa. A tipagem HLA mostrou DQ7 homozigótico, na ausência de DQ2 e DQ8. A biópsia duodenal mostrou uma infiltração intraepitelial de 37 por 100 enterócitos CD3, sem atrofia das vilosidades. A melhoria da dor nas costas e astenia ficou clara depois de três meses desde o início da dieta isenta de glúten. Aos 10 meses, houve resolução da dor lombar crónica, com recorrência após a ingestão inadvertida de glúten.

Caso 2: mulher de 28 anos, com dor lombar crónica e dor generalizada de características inflamatórias com critérios de Fibromialgia, um ano de evolução. O HLA B27 tinha título negativo e positivos os ANA em 1/80, sem especificidade. As radiografias simples mostraram esclerose de ambos as sacroilíacas com um diagnóstico diferencial difícil entre condensação osteíte do ilíaco e sacroileíte. A RM mostrou esclerose, erosões ósseas e edema demonstrativo de sacroileíte. A paciente reunia portanto critérios ASAS de espondiloartrite axial. Além disso, tinha um quadro digestivo associado com dispepsia, náuseas e vómitos. A sorologia para DC foi negativa. A tipagem HLA mostrou DQ7 e DQ6, com ausência de DQ2 e DQ8. A biópsia duodenal mostrou infiltração de 44 linfócitos intra-epiteliais CD3 por 100 enterócitos, sem atrofia das vilosidades. O quadro clínico foi remetido após sete meses de dieta isenta de glúten, tanto de dor nas costas, dor no corpo, e quadro digestivo. Aos 20 meses de acompanhamento, a remissão clínica foi mantida e referiu dor e a recorrência do quadro digestivo quando o glúten era retomado.

Caso 3: mulher de 50 anos de idade diagnosticada com espondilite anquilosante nos três anos anteriores, com sacroileíte bilateral em radiografia simples, com HLA B27 positivo. Tinha dor lombar inflamatória refratária incapacitante e grave, com resposta insuficiente a anti-inflamatórios. A RM da sacroilíaca mostrava esclerose, erosões ósseas e edema demonstrativo de sacroileíte activa. Sem esteróides, e difícil de gerir devido à coexistência de obesidade, espondiloartrose, hipertensão, alteração crónica das transaminases, diabetes mellitus, hipotireoidismo auto-imune e diarreia. A dor condicionada a uma vida limitada usando muletas e cadeira de rodas, dependentes de outras pessoas para o cuidado pessoal. Ileocolonoscopia com biópsias do íleo e cólon eram normais. A sorologia para DC era negativa; o HLA mostrou DQ5 homozigótico com ausência de DQ2 e DQ8. Foi oferecida a possibilidade de biópsia duodenal, mas a paciente optou por tentar a dieta isenta de glúten sem a fazer. Com a dieta e vitamina D a evolução foi muito favorável, com a remissão da dor incapacitante nas costas e diarreia em sete meses. Persistia a lombalgia mecânica e astenia. Foi adicionada uma dieta sem produtos lácteos com melhoria da fadiga. Na RM da sacroilíaca realizada aos 17 meses de follow-up foi observada remissão de edema ósseo. A paciente tinha recuperado a vida activa normal e voltado a trabalhar. Não voltou a ingerir glúten.

Caso 4: um homem de 39 anos, com dor lombar crónica com mais de 15 anos de evolução, espondilite psoriática diagnosticado com base em sacroileíte com edema ósseo na RM da sacroilíaca e psoríase. A condição do paciente era refractária e tinha sido proposta terapia biológica antagonista do factor de necrose tumoral. Teve uma criança celíaca, não tinha associados sintomas digestivos. A sorologia para DC foi negativa e mostrou DQ2.2 HLA (DQA1 * 02-DQB1 * 02). A biópsia duodenal marcava infiltração de 60 linfócitos intra-epiteliais CD3 por 100 enterócitos, sem atrofia das vilosidades. A dor nas costas melhorou notavelmente em cerca de um mês com dieta isenta de glúten. Num ano de acompanhamento, permaneceu em remissão da dor lombar com recidiva após ingestão de glúten. Não houve melhoria da psoríase.

Estes quatro pacientes com espondiloartrite axial, dois deles com espondilite anquilosante e um com espondiloartrite psoriática. São sensíveis ao glúten, com resposta clínica claro à dieta isenta de glúten apesar da DC ter sido descartada. Em dois casos, há um familiar celíaco. A melhoria da dor lombar crónica foi muito significativa, a ponto de haver resolução do quadro clínico, e em um caso foi observado remissão de edema da sacroilíaca mesmo depois de um longo tempo de acompanhamento. Além disso, em três pacientes nos quais houve exposição ao glúten, esta foi seguida de recaída clínica. É improvável que uma melhoria clínica como a descrita seja devido a uma coincidência ou efeito placebo. A observação de linfocitose intraepitelial juntamente com a evolução clínica apoia o conceito de espondiloartrite enteropática por sensibilidade não-celíaca ao glúten.

Sensibilidade não celíaca ao glúten e autoimunidade

Caso 5: mulher de 51 anos, seguida noutro centro artrite reumatoide erosiva, anti-CCP positivo. A sua situação clínica estava mal-controlada apesar de tratamentos químicos e biológicos. Era refractária ao tratamento anti-TNF e tinha sido incluída em ensaios clínicos de novos biológicos, como o ocrelizumab. Fez tratamento com metotrexato, rituximab, corticóides, indometacina, inibidores da bomba de prótons e sertralina. Embora a inflamação estivesse razoavelmente controlada com o tratamento com imunossupressores, ela tinha dor e astenia, diarreia, distensão e candidíase oral. A dor severa e a astenia condicionavam uma vida dependente. A sorologia para DC foi negativa. Decidiu-se tentar uma dieta isenta de glúten sem fazer tipagem HLA ou biópsia duodenal. A dieta foi seguida por clara melhoria em todos os quadros clínicos em seis meses. Aos quatro anos de dieta, mantinha-se em excelente estado clínico e tinha vida independente, fazia excursões ao campo e dançava zumba. Mantinha o tratamento com metotrexato 15mg semanais e prednisona por via oral 2,5 mg diários. Ao retomar o glúten tinha recorrência de diarreia, astenia e artrite, corroborando a sensibilidade ao glúten.

Caso 6: mulher de 39 anos, enviada por poliartrite simétrica, incluindo a participação da MCF e IFP, seis anos de evolução. RF, anti-CCP, ANA e HLA B27 foram negativos. Tinha recebido tratamento com sulfassalazina e corticosteróides, com melhoria parcial. Tinha associada astenia importante, candidíase oral e história de anemia por deficiência de ferro. Ela tinha sido previamente diagnosticada com síndrome do intestino irritável. A sorologia para doença celíaca foi negativa. A tipagem HLA mostrou a presença de HLA DQ8 e a biópsia duodenal mostrou 34 CD3 por 100 enterócitos. Aos nove meses após começar dieta isenta de glúten, teve resolução do quadro clínico. Encontrava-se assintomática, mantendo apenas sulfassalazina 1,5 g por dia, e tinha resolvido a anemia anterior. Aos dois anos de iniciar a dieta, permanecia assintomática, sem medicação. Recusou reintroduzir o glúten.

Caso 7: mulher de 49 anos, com diagnóstico de esclerose sistémica de forma limitada. Tinha Raynaud severo, com anticorpos centrómeros 1 / 2560. O resto das análises eram normais excepto Hb 11,5 g/dl. A gastroscopia mostrou gastropatia hipertensiva com angiodisplasia gástrica (water melon). O estudo do envolvimento cardiopulmonar foi negativo. O quadro clínico tinha quatro anos de evolução. Ela tinha fadiga severa, incapacidade de concentração e memória, distensão, diarreia intermitente, refluxo gastro-esofágico e candidíase oral. Não tinha tolerado o tratamento com esteróides. A coloração imuno-histoquímica da biópsia duodenal anteriormente considerada normal apresentou 25 CD3 por 100 enterócitos. Tinha o haplótipo HLA DQ2.5. Aos seis meses após o início da dieta, os sintomas digestivos tinham melhorado, assim como a fadiga e a Raynaud. Deixou de tomar a nifedipina. Adicionou-se suplementos minerais multivitamínicos, coenzima Q10 e Omega 3. Aos 18 meses após dieta estava assintomática, com resolução de sintomas digestivos, fadiga e cansaço mental. A Raynaud retornava ocasionalmente. Os anticorpos centrómero eram positivos a 1/160. A ingestão ocasional de glúten era seguida imediatamente por astenia, aftas e recidiva da sintomatologia digestiva.

Caso 8: mulher de 46 anos, com um quadro de mais de 10 anos de evolução com poliartrite e síndrome seco ao que posteriormente se juntou o fenómeno de Raynaud, teleangiectasias e úlceras digitais. Os dados analíticos mostraram FR 556 U, ENA anti-SS-A / Ro> 600, anti-ENA 140 U1 RNP RNP e anti-ENA-70 114. A capilaroscopia foi consistente com esclerose sistémica. A biópsia de glândula salivar foi consistente com a doença de Sjögren. Tinha-lhe sido sido prescrito o tratamento com corticosteróides, metotrexato, azatioprina, antimaláricos, leflunomida, estatinas, terapia antiplaquetária, anti-inflamatórios não esteróides, inibidor da bomba de prótons e antidepressivos. Ela tinha efeitos colaterais da medicação e baixa adesão ao tratamento. Tinha associada fadiga grave, diarreia e aftas orais. A sorologia para doença celíaca foi negativa e a biópsia duodenal normal. A tipagem HLA mostrou DQ2.2 (DQA1 * 02-DQB1 * 02) e DQ8. Aos quatro meses de iniciar dieta isenta de glúten teve clara melhoria nos sintomas gastrointestinais, fadiga e aftas assim como melhoria do inchaço nas mãos e lesões digitais. Se retomar o glúten, tem recorrência da diarreia. Dois anos mais tarde, a paciente está bem tratada com a dieta, leflunomida 10 mg por dia, Dacortín® 2,5 mg diários e suplementos vitamínicos e minerais. Os marcadores de autoimunidade mantiveram-se positivos para títulos similares.

Caso 9: mulher de 44 anos, encaminhada para outro hospital por repetição de artrite. Tinha ANA positivo flutuante e anticardiolipina IgG e IgM positivo em título baixo. Diarreia e astenia importante associadas; tinha sido diagnosticada com a síndrome do intestino irritável, e tinha uma filha com doença celíaca. A DC foi descartada pela sorologia negativa e biópsia duodenal, no entanto a paciente seguia desde há três anos uma dieta isenta de glúten não rigorosa, com clara melhoria nos seus sintomas, e pioria se ingeria glúten. Não quis fazer provocação. Os ANA foram positivos 1/160 e os anticorpos anticardiolipina foram negativos. Tinha o haplótipo HLA DQ2.5 e a revisão da biópsia duodenal anterior mostrou enteropatia Marsh tipo 1, 33 CD3 por 100 enterócitos. Foi recomendada uma restrita dieta isenta de glúten assim como a remoção de lácteos; foram adicionados suplementos de vitaminas e minerais, e Omega 3. No acompanhamento aos dois anos estava em remissão dos sintomas digestivos, da fadiga e do quadro articular. Os ANA estavam positivos a título 1/80 , a anticardiolipina mantinha-se negativa.

Neste artigo, postulamos a hipótese, com base em motivos razoáveis e observações clínicas, que a sensibilidade não celíaca ao glúten está associada a uma grande variedade de manifestações reumatológicas, incluindo fibromialgia, espondiloartrite e doenças autoimunes sistémicas. Na nossa experiência, os dados clínicos mais importantes que indicam a presença desta condição são a fadiga inexplicável grave, aftas, os sintomas digestivos associados, anemia por deficiência de ferro e ter um familiar celíaco. Estes dados clínicos devem ser particularmente considerados quando os pacientes com doença sistémica têm associado um quadro de fibromialgia. O bom desempenho após a dieta isenta de glúten, tanto nas manifestações do tipo da fibromialgia, bem como da artrite e sacroileíte, fazem-nos pensar que a sensibilidade ao glúten pode ter um papel etiopatogénico que funciona como gatilho em alguns pacientes com doenças autoimunes sistémicas."



sábado, 9 de maio de 2015

Biópsia depois da dieta

Como primeiro post do mês de Maio, o mês do celíaco, um artigo sobre como uma conhecida actriz inglesa chegou ao seu diagnóstico depois de ter iniciado a dieta. Nele, a actriz conta como decidiu reintroduzir o glúten na sua dieta para se submeter a biópsia do duodeno, tendo registado estas seis longas semanas para o programa do canal ITV, This Morning.

"A actriz Caroline Quentin conta como se envenenou com torradas em vídeo-diário para provar finalmente que tem doença celíaca

Caroline Quentin sofre de uma perigosa intolerância ao glúten e foi forçada a reintroduzi-lo na sua dieta para que pudesse ser diagnosticada com a doença celíaca. A ex-estrela de Men Behaving Badly, de 54 anos, revela que fez análises de sangue e testes genéticos há três anos, que sugeriram que ela tinha a doença, e assim que desistiu do glúten, o factor que desencadeia esta doença, viu a sua saúde transformar-se. Mas, a fim de receber um diagnóstico conclusivo, Caroline foi obrigada a consumir o que ela descreve como o seu "veneno" durante seis semanas para, em seguida, ser submetida a uma biópsia do intestino - uma viagem que ela partilhou com o programa da ITV, This Morning, através de um vídeo- diário.

Caroline admitiu no programa da ITV que, apesar de ter bastante certeza de que tinha a doença celíaca, estava disposta a submeter-se a uma biópsia para aumentar a consciencialização sobre esta aflição debilitante. (...) "Eu não quero que ninguém passe pelo que passei", disse aos apresentadores do programa, Phillip Schofield e Amanda Holden. "Eu deveria ter abordado isto há anos... Acho que vivo com isto há cerca de 30 anos, que é uma coisa horrível, e não posso imaginar por que não tratei disto mais cedo."

Há três anos que Caroline - que é agora patrona da ONG Coeliac UK – comeu o seu último pedaço de glúten, mas os seus sintomas regressaram 20 minutos apenas depois de ter devorado a sua primeira fatia de pão. (...) Ao final de seis semanas, estava pronta para fazer a sua biópsia (...). Ela foi, como previsto, diagnosticada com doença celíaca.

Falando no programa This Morning, ela disse: "Eu sinto-me tão bem agora que estou livre do glúten, que fiz a minha biópsia, e sei que sou celíaca. (...) 'Depois de ser diagnosticada, uma pessoa não tem que tomar nada para melhorar da doença celíaca, apenas retira o glúten da dieta e fica maravilhosamente bem.'

O especialista do programa, o Dr. Chris, disse: "A doença celíaca é uma doença grave. É a doença genética mais comum e a menos diagnosticada. "No Reino Unido, existem 500 mil pessoas que vivem a sua vida com doença celíaca e nem fazem ideia. Eu estive doente durante 40 anos ou mais e nunca soube que a tinha. " Acrescentou: "As pessoas devem fazer o exame de sangue da doença celíaca, não alterar a sua dieta, comer normalmente, depois do exame de sangue fazer a biópsia ingerindo glúten para ver os estragos do mesmo." (...)

"Eu tinha náuseas frequentes, úlceras na boca e erupções cutâneas, e, muitas vezes, tinha que correr para a casa de banho", lembrou Caroline numa entrevista. "Eu não sabia sobre a doença celíaca, logo pensava que tinha uma alergia apenas. Fui ao médico que me disse que seria algo relacionada com o stress, provavelmente. "Como uma em cada quatro pessoas com a doença, ela foi inicialmente diagnosticada com síndrome do intestino irritável (SII). (...) "Mas, na verdade, os meus sintomas pioraram ao longo do tempo. Desenvolvi anemia, letargia e distensão abdominal, e as crises de diarreia e vómito tornaram-se mais frequentes. Se comesse uma pratada de massa ou uma fatia de pão, rapidamente, ficava doente. Provavelmente, comeria grandes quantidades de glúten por dia, no pão, bolos, pizzas e biscoitos. Existe em muitos alimentos, até mesmo coisas como salsichas, sopas, molho de soja e cubos de caldo. As erupções cutâneas eram horríveis – pústulas moles e em ferida, onde houvesse fricção na minha pele, como debaixo do meu soutien. Eu culpava o sabão em pó e não ligava o problema de pele com os meus problemas digestivos. Agora sei que as erupções eram, provavelmente, dermatite herpetiforme, que é a apresentação na pele da doença celíaca. Eu era um caso clássico.

Embora tivesse vergonha de dizer a alguém o que ela estava a sofrer, os sintomas de Caroline, muitas vezes, interferiam com a sua vida e o seu trabalho. (...) 'Eu estaria de pé no cenário a pensar: "Tenho que ir à casa de banho agora - é uma emergência!" (...) "Lembramos (Caroline e o marido) as encantadoras refeições em restaurantes finos que me punham a vomitar no passeio quando saíssemos. Mas a realidade é que isto não tem piada nenhuma. É horrível. " (…)

Finalmente, descobre que tinha a doença celíaca por acidente há três anos, quando, ao tentar chegar à raiz da sua anemia grave e crónica, o médico pediu uma análise de sangue para doença celíaca. Veio positiva. "Eu estava no cenário da série Restoration Home quando ele me ligou para informar", diz. "Ele disse:" Você tem anticorpos celíacos ", e aconselhou-me a parar de comer glúten. "A minha resposta imediata foi: Existe glúten na vodka ou no vinho? "Tenho o prazer de dizer que não há. Embora haja na cerveja tradicional".

Cortar o glúten da sua dieta foi, como descobriu, surpreendentemente fácil. "Há uma abundância de alternativas isentas de glúten, como pão sem glúten e massas, que não são tão deliciosas, mas consigo viver com isso", disse. (...)

Caroline admitiu que se arrepende de não ter feito a biópsia do intestino imediatamente após o exame de sangue. "Eu estava de rastos com o trabalho naquela altura, mas, em retrospectiva, foi um erro", disse. "É realmente importante que as pessoas não sigam o meu exemplo."

Olhando para trás, ela acredita que herdou a doença da sua falecida mãe que, tal como 76 por cento das pessoas com esta condição, permaneceu sem diagnóstico. A doença celíaca aparece em famílias - se você tem, há uma hipótese em dez que um parente próximo a possa desenvolver. As suas irmãs não têm doença celíaca, mas a Caroline mantêm um olhar atento sobre os seus filhos e irá testá-los exaustivamente. 

"Tenho a certeza de que a minha mãe tinha – até aposto", disse. "Ela teve terríveis problemas digestivos toda a vida, e, nos seus últimos tempos, tornou-se magra, frágil e cronicamente anémica, com osteoporose que desfez a sua anca. "Mas ela não era de se queixar e as pessoas da sua geração certamente não falavam sobre as suas entranhas. Essa é uma das razões pelas quais eu me tornei patrona da Coeliac UK e porque estou a falar sobre isso agora, porque causa sintomas embaraçosos e as pessoas não gostam de admitir que têm problemas intestinais. "Mas eu não sou tímida e se, por ser aberta sobre isto, conseguir encorajar ainda que apenas algumas pessoas não diagnosticadas a fazer o teste, ficarei muito contente."



segunda-feira, 2 de junho de 2014

2 diagnósticos: Keira e Bailey

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O blog Raising Jack with Celiac tem publicado, a propósito de Maio ser o Mês do Celíaco, uma série de testemunhos de mães de crianças celíacas. Aproveitando o facto de ontem ter sido Dia Mundial da Criança, seleccionei duas histórias, dois diagnósticos atípicos, e quase opostos: uma criança assintomática, Bailey, mas com um diagnóstico claro, e Keira com sintomas clássicos, mas com um rastreio a encaixar mais na sensibilidade não-celíaca ao glúten do que doença celíaca. Porque nem tudo é preto e branco, principalmente se se tratar de condições associadas ao glúten.

Keira tem sete anos de idade e foi diagnosticada recentemente com doença celíaca.

Quais os sintomas da sua filha antes de ser diagnosticada?
Prisão de ventre e diarreia, refluxo, dor de estômago, dores nas pernas, anemia crónica, atraso no crescimento, cólica e constantemente doente até antes do diagnóstico.

Há outros membros da família diagnosticados com a doença celíaca?
Não, não foram testados, ainda que suspeitemos que existem alguns.

Como mudou a vida da sua filha desde que foi diagnosticada?
A sua vida melhorou muito! Antes do diagnóstico, ela estava constantemente doente e faltava muito à escola. O estômago incomodava-a muitas vezes ao dia - às vezes, o dia todo. Ela estava sempre cansada e nunca parecia ter a energia habitual. Já tínhamos ido a um médico gastrenterologista um ano antes do seu diagnóstico, que encontrou anemia e uma pequena inflamação intestinal, mas porque o rastreio á doença celíaca foi negativo tal como a biópsia, concluíram que ela não tinha a doença e prescreveram-lhe o medicamento Pentasa. Como sua mãe, eu estava cansada de ver o declínio rápido da sua saúde de cada vez que tentava retirar-lhe o medicamento. Felizmente, isto foi na altura em que encontrei um pediatra de medicina integrativa que procurou várias deficiências nutricionais, assim como pediu a análise genética. Quando se verificou que ela era portadora dos dois genes da doença celíaca, o nosso pediatra fez-lhe esse diagnóstico assim como identificou quais as muitas deficiências nutricionais. Nos seis meses desde o seu diagnóstico, as dores de barriga desapareceram, assim como as dores musculares. A área em que vejo o maior avanço está na sua energia e entusiasmo pela vida. Quando eu a vejo ganhar vida no campo de futebol , sei que ela está muito longe de há seis meses atrás, quando mal conseguia manter o ritmo dos outros jogadores. Agora, marca golos e corre mais que todos. É uma diferença da noite para o dia. E é lindo ver a sua transformação!


Sendo que 83% das pessoas com doença celíaca não estão diagnosticadas, de que maneiras podemos incentivar uma maior consciencialização sobre a doença e os seus múltiplos sintomas?
Olhar para as fases iniciais da doença celíaca. Diagnosticar a doença celíaca para evitar mais problemas de saúde e para diminuir o risco elevado de morte precoce. Além disso, deve-se prestar mais atenção aos testes genéticos.


Bailey tem quatro anos de idade e foi diagnosticada com a doença celíaca aos 3 anos.

Quais os sintomas da sua filha antes de ser diagnosticada?
Prisão de ventre, mais nada. Cresceu bem, sem preocupações. Decidi que eu e as crianças faríamos o rastreio porque tenho diabetes tipo 1 e há uma alta incidência de doença celíaca entre as pessoas com esta doença. A sua análise tTG IgA estava 12 vezes acima do intervalo normal e a endoscopia com biópsia mostrou danos em quatro das cinco áreas analisadas.

Há outros membros da família diagnosticados com a doença celíaca?
Não.

Como mudou a vida da sua filha desde que foi diagnosticada?
Como a Bailey era quase assintomática, excepto com a obstipação frequente, não houve qualquer alteração perceptível. Ela já não acorda a meio da noite a chorar como às vezes fazia, mas ainda luta com a regularidade dos seus intestinos. A médica disse que poderia levar meses até que isto se corrigisse. O diagnóstico foi feito há oito meses. Não costumávamos comer muito fora anteriormente, mas agora é muito raro. Eu experimento mais na cozinha agora para fazer as coisas de que ela gosta.

Sendo que 83% das pessoas com doença celíaca não estão diagnosticadas, de que maneiras podemos incentivar uma maior consciencialização sobre a doença e os seus múltiplos sintomas?
Eu acredito que temos membros da família não diagnosticados e que não querem saber se têm ou não, porque temem as restrições alimentares. A minha filha ainda tem muita escolha de alimentos. Não me consigo lembrar de nada que não consigamos encontrar um substituto decente. Não tenha medo da dieta. Olhe em frente para que se sinta melhor.”

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Apoios online

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Num mundo ideal, uma pessoa que recebesse um diagnóstico de uma das condições associadas ao glúten, seria direccionada para um grupo de apoio local na sua área de residência, onde receberia ajuda na dieta assim como apoio emocional, numa transição fácil e isenta de dramas. No entanto, o baixo número de diagnósticos e a grande falta de conhecimentos sobre estas condições não permitem ainda que se crie em Portugal uma rede de grupos de apoio, tal como existem nos EUA, Espanha e Brasil, entre outros países.

De modo que, um recém-diagnosticado ou alguém que esteja a caminho de um diagnóstico, em Portugal, só quase encontra apoio online. Quando o meu filho foi diagnosticado em 2008, não havia qualquer tipo de apoio e a informação era escassa. Já aqui referi que a minha insistência em que lhe fizessem uma biópsia se deveu ao facto de frequentar um fórum de celíacos americanos e perceber que umas análises negativas não excluíam o diagnóstico. Lia os testemunhos de outros pais de crianças celíacas e percebia que o meu filho encaixava naquele perfil, apesar do que os médicos me diziam.


Daí que trago hoje uma série de links para sítios online onde se pode encontrar informação e apoio, uma voz amiga que nos diz que a dieta não é o fim do mundo, que a espelta não é um cereal sem glúten, que sim, que enxaquecas podem ser um sintoma de doença celíaca, que nos dá uma receita fenomenal de pão sem glúten quando já gastamos cinco quilos da caríssima farinha sem glúten em tentativas intragáveis. Caso algum leitor conheça um outro grupo que possa recomendar, agradeço que deixe a sugestão na caixa de comentários.

Viva Sem Glúten Portugal - grupo fechado no Facebook para troca de todo o tipo de informações, com organização de eventos e distribuição de uma newsletter mensal.

Viva Sem Glúten - grupo semelhante ao anterior, mas principalmente dirigido ao público brasileiro, ainda que haja membros portugueses a aprenderem  também muito por lá.

500.000 Recetas para Celiacos - grupo espanhol fechado no Facebook cujo objectivo principal é a troca de receitas para todos os gostos, desde que sejam sem glúten, claro.

Associação Portuguesa de Celíacos - a página de Facebook da APC também é um local útil para receber e trocar informações com sócios e não sócios.

Foro de Celiacos - um fórum espanhol com bastantes utilizadores muito conhecedores da doença celíaca e os seus mistérios, sempre prontos a ajudar a tirar dúvidas.

Gluten Free Forum - um fórum americano, ligado ao site celiac.com, tão bom ou melhor do que o anterior, com a vantagem de os Estados Unidos estarem mais à frente na pesquisa, logo encontram-se as últimas novidades com facilidade.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Infertilidade de causa desconhecida

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Não sei porque é que a ignorância sobre as condições associadas ao glúten ainda me espanta. Um caso que é recorrente, e cada vez mais comum, é o casal com "infertilidade de causa desconhecida". Os médicos não percebem porque é que aquela mulher não engravida, ou engravidando, aborta sistematicamente. As análises estão perfeitas, as ecografias estão perfeitas, logo só pode ser azar, porque "Deus não quis". Hoje, quando já muitos estudos apontam para uma doença celíaca ou sensibilidade ao glúten como explicação para estes casos, os médicos parecem continuar sem saber mais do que apenas rotular os seus pacientes com o frustrante rótulo da "infertilidade de causa desconhecida".

Um testemunho recente no Foro de Celiacos lembrou-me que é necessário continuar a "insistir na tecla". O post da utilizadora Yogliadina que decorre de Fevereiro a Novembro deste ano é um exemplo perfeito de que não se deve aceitar rótulos, mas sim insistir na procura da causa.

15/Feb/2013, 20:12
Olá Fórum! Ontem, fui ao médico e pedi uma análise para ver se sou alérgica a algum alimento e fazem-mas para a semana. O meu assunto é infertilidade desconhecida. Uma amiga da minha irmã, com um problema semelhante, descobriu recentemente que era celíaca. Então, soube desta doença por acaso, e quanto mais eu descubro, mais relevante e familiar se torna no meu dia-a-dia.
(…)

Fui uma menina "fraca", extremamente magra, com falta de apetite, pálida, distraída e tímida. Não podia nem posso comer “doces” ao pequeno-almoço, os bolos caem-me mal, leite com Colacao fazia-me baixar a tensão, sempre tive alguns gases e gastroenterites, mas especialmente obstipação crónica, com a qual aprendi a viver. Sempre na fronteira da anemia. O meu esmalte dentário é escuro, tornei-me mulher aos 16 anos. A minha personalidade "difícil" ficou mais inquieta na adolescência. Apareceram as minhas enxaquecas típicas, cãibras musculares principalmente à noite, ansiedade, cansaço, azia, sensação de enfartamento e erupções cutâneas... Acne, dermatite seborreica (nervosismo?) no couro cabeludo, parte inferior do pescoço, costas, peito, e na cara, nas sobrancelhas, testa e nariz (como li nalgum lugar). Eu nunca me bronzeio facilmente, há alguns anos que tenho algumas manchas brancas nas pernas e braços, e a gordura do rosto escurece com o sol e um sem fim de pequenas coisas mais.

O pior... A minha infertilidade desconhecida, porque está tudo bem, depois de engravidar naturalmente tive um aborto espontâneo, os anos passaram-se e nada. Fomos para uma clínica de fertilidade... Perdi mais dois. Estou frustrada! Supõe-se que não haja nenhum problema aparente, sou uma mulher saudável, bem-parecida, caucasiana (de acordo com os médicos, é fruto do azar, resultado da má sorte). Eu não acho que seja assim, é claro que alguma coisa impede o seu correcto desenvolvimento.

Curiosamente... Disse à minha mãe sobre a doença celíaca e, para minha surpresa, ela disse-me que, embora adore o pão, a verdade é que lhe cai mal e há muito tempo que não come sopas de pacote, porque percebeu que a punham doente.

13/Mar/2013, 13:44
Olá fórum, como "temia", o resultado da analítica é NORMAL e não sou alérgica a coisa alguma, nem tenho problemas de tiróide. Há duas semanas que reparo na quantidade de glúten que entra na minha dieta e, talvez seja psicológico, mas sinto-me mal. Pedi ao médico consulta de gastrenterologia, mas só daqui a dois meses. Já pensei em fazer uma dieta sem glúten a ver como me dou... Mas o que faço, espero pela consulta? Ou começo já? Isto porque tenho uma enorme distensão abdominal e a minha pele está seca, com alguma comichão e vermelhidão no rosto que até… Uff! Esta situação mata-me! 

4/Nov/2013, 15:36
Olá novamente! Ainda que tenha passado um longo tempo, eu queria abrir este tópico para continuar com a minha história e dizer que estou a fazer a dieta isenta de glúten. Graças a vocês, achei-a muito fácil e estou fenomenal. Apesar de não estar diagnosticada como celíaca, tenho-o muito claro! Aliás, ao remover o glúten da minha vida, também consegui, em menos de quatro meses,  o que não consegui durante anos e com muito sacrifício... Engravidar naturalmente. Então, estamos super felizes, mais que felizes, estamos num sonho! Sim, se alguém passou pelo que eu passei, saiba que o glúten causava-me rejeição imunológica. (...) Eu estou de quatro meses e está tudo a correr muito bem!”

Artigos sobre infertilidade e DC:
Celiac disease: an underappreciated issue in women’s health

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sarcoidose e DC

Costumo seguir o blog Raising Jack With Celiac que é feito pela mãe do Jack, que tem doença celíaca. Há alguns posts atrás, ela contava que o seu marido, Jeff, estava com suspeita de ter também doença celíaca, já depois de ter sido diagnosticado com sarcoidose, e de, inicialmente, após o diagnóstico de Jack, ter tido um rastreio negativo para DC. O teste genético estava positivo e esperavam agora pelos resultados das análises.  
No seu post mais recente, ela conta que se confirmou a DC pelo que se pode concluir que: um rastreio inicial negativo não invalida que a doença celíaca não possa aparecer mais tarde; doença celíaca e sarcoidose podem aparecer de mãos dadas, como se pode ver também nos estudos que estão mencionados no fim deste post. Deixo então parte do seu relato traduzido: 







“As doenças auto-imunes existem na nossa família. O papá do Jack, Jeff, foi diagnosticado com sarcoidose, em Fevereiro de 2011, depois de cinco meses de testes, raios-x, uma ressonância magnética, uma biópsia, etc. A sua mãe também tinha sido diagnosticada há cerca de cinco anos. É interessante, no mínimo. Há semelhanças entre a sarcoidose e doença celíaca pois ambas podem ter uma ampla variedade de sintomas! Foi então desta maneira que o meu marido foi diagnosticado com sarcoidose... E depois, então, com a doença celíaca.



Fizemos uma grande mudança do Indiana para o Tennessee, em Fevereiro de 2011, por causa do trabalho do meu marido, e o stress da sua função demasiado exigente logo teve o seu impacto. Em Outubro de 2011 o meu marido começou a ter um inchaço ocasional nos tornozelos, um tornozelo pior que o outro. Por altura da festa de Acção de Graças, os seus tornozelos ficaram tão inchados que ele mal conseguia andar. Foi às Urgências e diagnosticaram-no ou com uma possível picada de carrapato ou com artrite reumatóide - deram-lhe um antibiótico caso fosse picada e saímos...



Não houve melhoria no inchaço, então o Jeff visitou o seu médico que pediu alguns testes e colocou-o numa pequena dose de cortisona. Esta reduziu significativamente o inchaço. Ele foi, então, encaminhado para um reumatologista e um cirurgião ortopédico. O reumatologista sugeriu possível gota ou sarcoidose e o cirurgião ortopédico sugeriu que os seus pés tinham sido mal feitos de raíz!



Para verificar se a sarcoidose era uma possibilidade, era necessário um raio-X do peito de Jeff - com sarcoidose, há um aumento dos gânglios linfáticos na cavidade torácica. Bem, o raio-x estava anormal o que levou a uma ressonância magnética que, em seguida, levou a uma biópsia! Sarcoidose e cancro imitam-se, logo era necessária uma biópsia dos gânglios linfáticos. Após a biópsia e uma cicatriz de 2 polegadas na parte superior do peito, logo abaixo do pescoço, o Jeff foi mandado a um pneumologista que, finalmente, lhe diagnosticou a sarcoidose.



Ao Jeff foi dado um corticosteroide a tomar durante mais dois meses para diminuir os seus nódulos linfáticos. Basicamente, o processo decorreu de Outubro de 2011 a Junho de 2012 - a partir de uma possível picada de carrapato para uma biópsia. Hoje, a sarcoidose de Jeff está em remissão. Pode nunca mais ter um novo episódio.



AGORA, é aqui que a doença celíaca entra em jogo... Ao longo destes últimos dois anos, o corpo de Jeff mudou definitivamente. No ano passado, lentamente, novos sintomas foram aparecendo, o que fez com que ele quisesse tentar uma dieta isenta de glúten. Desde enxaquecas, barriga inchada, fadiga e mais visitas à casa de banho, ele queria ver se se iria sentir melhor mudando para uma dieta sem glúten. Após dois meses de iniciar a dieta, perguntei-lhe se sentia alguma diferença; respondeu-me "Acho que sim... " (…). Então disse: " Jeff, quero que voltes a comer glúten para ver se há uma diferença, e fazer o teste para a doença celíaca. Precisamos de saber com certeza. Precisamos de levar a sério a contaminação cruzada, o que não estás a fazer agora ". Então, ele voltou ao glúten. Numa semana, os sintomas começaram a voltar: enxaquecas, mais idas à casa de banho, etc. O Jeff disse: " Posso definitivamente ver a diferença agora."



Liguei para levá-lo a fazer o painel de análises para a doença celíaca. Os resultados chegaram em poucos dias com o ANTICORPO ANTI-ENDOMISIO POSITIVO... Infelizmente, o laboratório não fez o teste de anticorpos tTG –IgA (anticorpo anti-tranglutaminase), que é um grande indicador de doença celíaca. Então, na consulta com o gastrenterologista, mencionei isso para que fizessem mais análises. Descobrimos ontem que o seu tTG -IgA é positivo.



Não faremos uma endoscopia para confirmar. Na minha opinião, não sinto que seja necessário e assim defende também o Dr. Alessio Fasano do Centro de Pesquisa Celíaca do Hospital de Massachusetts.”

Estudos que apontam para uma possível ligação entre sarcoidose e DC:






sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Ataques de pânico


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aqui falei dos efeitos a nível do cérebro da ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas a condições associadas a esta proteína. A propósito de um estudo italiano de 2002 que encontrei recentemente, aproveito para falar dos ataques de pânico que podem ser, em algumas pessoas, um sintoma de doença celíaca ou sensibilidade ao glúten não celíaca.



O resultado deste estudo evidencia um aumento de anticorpos peroxidase da tiróide em pacientes com doença celíaca em relação a indivíduos saudáveis, 31% em pacientes com doença celíaca, contra 10% dos indivíduos saudáveis​​. Os pacientes com doença celíaca também tiveram um número de sintomas depressivos ou de ansiedade significativamente maior do que as pessoas saudáveis, ​​e ainda maior em pacientes com doença celíaca e transtornos da tiroide.

Como já tínhamos visto aqui, a probabilidade de existir concomitantemente doença celíaca e doença da tiroide é elevada. Este estudo acrescenta mais um dado à equação e conclui que os pacientes com doença celíaca têm uma maior prevalência de ataques de pânico, ataques de pânico ou transtornos depressivos, e o relacionamento com doença da tiróide é um factor de risco para o desenvolvimento desses distúrbios psiquiátricos.

Este estudo levou-me ao testemunho que trago hoje de uma jovem norte-americana que se curou dos ataques de pânico de que padecia com uma dieta isenta de glúten.


“A minha história celíaca

Em Abril do ano passado, tive um vôo horrivelmente turbulento pouco antes do fim-de-semana de Páscoa e, naquela noite, o meu primeiro ataque de pânico. Eu nunca tinha sentido nada parecido - uma completa perda de controlo, agitando os membros, e o medo palpável de que eu estava perto da morte. Implorei ao Shawn para levar-me a um hospital, pensando que algo estava muito mal. Ele tentou acalmar-me e preparou-me um banho quente, o que ajudou um pouco. Rezámos e pedi aos meus pais e a alguns amigos para rezarem, o que também ajudou. Mas era ainda um mistério porque é que isso tinha acontecido. Era diferente de tudo o que eu já tinha experimentado, e não sinto que estivesse numa época particularmente estressante na vida. O vôo tinha sido assustador, mas não o suficientemente mau para causar tais graves sintomas.

Com os dias e semanas a passarem, não tive mais outro ataque em grande escala, mas sentia pânico a cada duas semanas e as minhas pernas tremiam (como nos grandes calafrios). Outros sintomas começaram a aparecer também. Desenvolvi uma aborrecida dor de cabeça constante que aumentava e reduzia em gravidade. E depois de comer, quase sempre eu sentia-me enjoada e tonta e tinha que deitar-me até que passasse. Tornei-me uma especialista em fingir que estava bem, mas mesmo se eu parecia completamente normal para os amigos, normalmente não estava bem.

Havia também sintomas gastrointestinais, tais como acordar a meio da noite esfomeada. Eu tinha tanta fome às duas ou três horas da manhã que corria cegamente para o frigorífico, comer um pouco de manteiga de amendoim ou pão e, em seguida, voltar a dormir por algumas horas. Eu acordaria novamente o mais tardar às cinco horas pelo mesmo motivo.

Como pode ver, esta não era uma boa maneira de viver.

Isto durou cinco a seis meses, e durante este tempo, visitei cinco médicos diferentes. Os dois primeiros médicos achavam que eu estava "apenas grávida" e rejeitaram os meus sintomas como de uma gravidez incipiente. Para que conste, eu não estava grávida, e fiquei frustrada porque realmente eles não me tinham ouvido. Para os tremores nas pernas, um médico disse: "Não se preocupe, você não tem MS" e prescreveu um potente relaxante muscular com efeitos colaterais horríveis, que eu optei por não tomar.

Outro médico supôs que eu tinha problemas de açúcar no sangue, e mandou-me para casa com um monitor de glicose. Eu sabia que não era a candidata típica para diabetes, mas eu aceitei a sua ideia. Testei o meu açúcar no sangue a cada duas horas ou quando os sintomas ocorriam, mas os números não coincidiam com os meus sintomas, como eu esperava. Tinha muito baixa de açúcar no sangue (hipoglicemia) às vezes, mas nunca um valor muito alto, o que indicaria diabetes. E isso não respondia por todos os sintomas que eu estava a ter.

Este miserável "não saber" durou sete meses, até que tivéssemos uma resposta. Eu fiz 16 exames de sangue diferentes, e o único que apareceu como anormal indicou que eu poderia ter uma intolerância ao glúten ou doença celíaca. Eu pensei que o glúten era como a glicose (de volta para os problemas de açúcar no sangue), mas quando fiz mais pesquisas, descobri que este é uma proteína encontrada no trigo, cevada e centeio.

Nessa altura, eu estava disposta a tentar qualquer coisa, mas estava muito céptica de que algo que eu comia podia causar sintomas neurológicos. Mas, ainda assim, cortei o glúten completamente da minha dieta. Você ficaria surpreso com o quão isso é difícil no início! Nem pão, nem massa, nem bolachas, nenhum cereal de pequeno-almoço. E não pára aí - o glúten é encontrado em muitas sopas, molhos, molho de soja, e até mesmo em certos aromas de café, leite de soja e sacos de chá que são selados com pasta de trigo! É um campo minado da culinária! Tornei-me uma leitora incessante de rótulos, tentando detectar se havia fontes de glúten escondidas em alguma coisa que eu comesse (o glúten pode até ser disfarçado como "amido modificado", por exemplo).

Mas funcionou.

Algumas semanas após iniciar a minha nova dieta, senti-me eu própria novamente! Não tinha mais ataques de pânico, nem tremores nas pernas, nem dores de cabeça, nem náuseas, nem tontura. E agora, três meses depois, a minha saúde foi completamente restaurada! Louvado seja o Senhor!

O problema é que, quando se afasta do glúten, o seu corpo torna-se ainda mais intolerante com ele. Assim, se eu ingerir um vestígio de glúten (como no caso do meu frango que era grelhado juntamente com outro frango coberto com molho com glúten), eu poderei ficar muito doente e a vomitar durante horas. Logo, eu tomo muito, muito cuidado.

Uma pergunta que me faziam muito era: Se sempre foste alérgica ao glúten, como é que só agora descobriste? Bem, pelo que eu li, a doença celíaca é uma doença complicada e manifesta-se de muitas maneiras diferentes ao longo da vida. Olhando para trás na minha própria história, as peças do puzzle encaixam-se e faz todo o sentido que eu tenha sempre sido intolerante ao glúten e não o soubesse durante muitos anos. Por exemplo, eu tinha asma e alergias e bronquite crônica no ensino básico, e refluxo crónico no ensino secundário. Estes sintomas e outros apontam para a doença celíaca, embora muitos não sejam diagnosticados até aos seus vinte e poucos anos ou mais tarde, quando o seu corpo diz "basta" finalmente, e há uma reacção mais aguda. A maioria vivencia sintomas gastrointestinais, alguns nunca os têm.”

Outros posts sobre o tema:
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