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DADOS, DICAS E RECEITAS DE VIDAS SEM GLÚTEN



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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Um novo livro e o poder dos números

O Centro de Doença Celíaca da Universidade de Chicago editou este mês um e-book, intitulado "Jump Start Your Gluten Free Diet", disponível gratuitamente no seu website, onde reúne informação importante e muito útil para todos aqueles que lidam com condições associadas ao glúten. Na sua descrição, é dito que "Com este guia grátis, você vai entender as diferenças entre a doença celíaca, intolerância e alergias; aprender sobre os mais de 300 sinais e sintomas associados à doença celíaca, as análises genéticas e de anticorpos, o diagnóstico e o devido acompanhamento, e compreender quais os ingredientes seguros/proibidos, como cozinhar com segurança em casa, e obter dicas sobre comer fora dela."

Muito bem concebido a nível de conteúdo e estética, são os números, as estatísticas que me impressionam e que tornam real o alcance da doença celíaca (onde não se incluem sequer os números da sensibilidade ao glúten não-celíaca) e ainda que sejam estatísticas americanas:

"A doença celíaca é uma condição rara? Não. A doença celíaca afecta pelo menos 1% de americanos, quase 3 milhões de pessoas nos Estados Unidos. Que outras doenças crónicas são comuns nos Estados Unidos?
· A doença de Alzheimer afecta aproximadamente 2milhões de pessoas
• A epilepsia afecta 2,7 milhões
• A fibrose cística afecta 30.000 pessoas
• 17.000 pessoas vivem com hemofilia
• A doença de Parkinson afecta 1 milhão de pessoas
• A colite ulcerativa afecta 500 mil pessoas
• A doença de Crohn afecta 500 mil norte-americanos
• 2,1 milhões de americanos vivem com artrite reumatóide
• O lúpus afecta 1,5 milhões de pessoas
• A esclerose múltipla afecta 400 mil pessoas nos Estados Unidos"

Sobre o diagnóstico tardio e a sua ligação a um maior risco de desenvolvimento de outras doenças auto-imunes:

"A incidência das doenças auto-imunes na população em geral é de 3,5% nos EUA. Num estudo de 1999, Ventura descobriu que aqueles com um diagnóstico de doença celíaca feito entre os 2-4 anos de idade, tinham uma probabilidade de 10,5% de desenvolver uma doença auto-imune. Resultados adicionais estão descritos na tabela a seguir:

Idade ao diagnóstico                Probabilidade de desenvolver uma doença autoimune
4 – 12 anos                                                                       16.7%
12 – 20 anos                                                                      27%
Mais de 20 anos                                                                 34%"

Todos conhecemos várias pessoas com as doenças acima mencionadas. Quantas conhecemos com doença celíaca? Apesar de, ultimamente, os diagnósticos estarem a ser feitos em maior número e mais precocemente, ainda há muito por fazer. Como se vê, quanto mais cedo, melhor.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Novo e-livro sobre DC e Sensibilidade ao Glúten

Já está disponível para download gratuito um livro editado por Amado Salvador Pena e Luis Rodrigo Saéz, dois conhecidos especialistas em condições associadas ao glúten. Dividido em 25 capítulos, aborda as mais variadas questões relacionadas com esta temática, com a participação de vários investigadores da área, espanhóis e ibero-americanos. Como tal, está escrito em Espanhol, mas é de fácil compreensão e muito útil para quem se interessa por esta temática.

Pode ser descarregado aqui, seleccionando a opção "Export as PDF". 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

31: receitas | bloguers | dias

Há uns tempos atrás, recebi um email da Magda, autora do blog Mum´s the Boss, " onde se escreve, num tom leve sobre coisas muito sérias:  Felicidade, Educação e Parentalidade Positiva, com o mote 'a mão que embala o berço é a mão que embala o mundo'". Este contacto trazia uma proposta irresistível pela utilidade que pretendia: fazer um e-book de receitas para os 31 dias do mês com receitas fáceis e rápidas, de modo a facilitar o dia-a-dia da mulher "moderna".

Ora a culinária sem glúten nem sempre é fácil e rápida, mas achei que poder passar uma receita de pão sem glúten e que ficasse bem, era igualmente relevante. Daí que a minha participação, entre as 31 bloguers que aderiram ao projecto, seja de uma receita de pão tipo bijou sem glúten. Nem todas as receitas são sem glúten, mas a maioria é facilmente adaptável, logo este livro acaba por ser útil a qualquer pessoa. O e-book pode ser descarregado aqui. Parabéns Magda pela ideia e pelo trabalho que está excelente!

No caso da minha receita em questão, surge porque um pão sem glúten nunca será igual a um pão com glúten, exactamente porque é esta proteína que faz do pão aquilo que ele é. No entanto, pode-se usar vários métodos para simular as mesmas condições de que um pão com glúten usufrui. O resultado será diferente, mas será na mesma um pão saboroso. Para tal, nesta receita, socorri-me de alguns “truques”:

1- Esta receita leva duas misturas panificáveis sem glúten: a Schar Mix B é essencial, pois permite melhores resultados com receitas de pão; a segunda mistura pode variar de marca, desde que os seus ingredientes sejam principalmente amidos (de milho, batata, mandioca…). Uma mistura para pão integral não iria funcionar, pois o alto teor de fibras produz uma textura mais densa, enquanto o pão desta receita resulta numa massa leve.
2- A farinha de grão-de-bico, sendo rica em proteínas, complementa as misturas panificáveis, pobres em nutrientes. Na farinha de trigo é o glúten a proteína que sustém o fermento, logo nas receitas de pão sem glúten é necessário dar outro tipo de “alimento” ao fermento, neste caso a proteína do grão-de-bico.
3- O gengibre funciona como um melhorante caseiro nas receitas de pão, primeiro porque ajuda a preservar a textura do pão, e, segundo, porque funciona também como alimento para o fermento.
4- O ácido ascórbico, o nome científico da conhecida vitamina C, é um reconhecido antioxidante e cria um ambiente acidíco no qual o fermento prolifera. Caso não o encontrem à venda, pode-se substituir por 1 colher de chá de sumo de limão.

Pão Bijou
Ingredientes:
250 gramas de farinha Schar Mix B
200 gramas de farinha panificável SG (marcas Jumbo, El Corte Inglés, Procelli,…)
50 gramas de farinha de grão-de-bico (marcas Doves Farm, Bauckhof)
5 gramas de sal fino
½ colher de chá de gengibre em pó
430 ml de água com gás
25 gramas de fermento fresco (1 cubo da marca Levital)
1 colher de chá de açúcar
¼ colher de chá de ácido ascórbico/ vitamina C (marca Doves Farm)
2 colheres de sopa de azeite
Para pincelar
Água
Azeite

Aqueça a água com gás, coloque metade na cuba da sua batedeira e a outra metade num copo. Neste, dilua o açúcar primeiro e depois o fermento, mexendo bem até estar totalmente dissolvido. Coloque o copo num local morno durante 10 minutos até obter um dedo de espuma.

Entretanto, misture bem as farinhas com o sal e o gengibre até obter uma cor homogénea, i.e., até que nenhum elemento sobressaia. Reserve.

Junte o fermento à restante água na cuba da batedeira, mais o ácido ascórbico e o azeite. Acrescente as farinhas e deixe a batedeira amassar durante cinco minutos em velocidade média.

Enquanto isso, ligue o forno a 50ºC durante três a cinco minutos para criar um bom ambiente para a levedação. Desligue o forno e coloque dentro a cuba com a massa, tapada com um pano húmido, durante 30 minutos.

No final desse período, enfarinhe bem a bancada de trabalho e as mãos com farinha sem glúten, e vá retirando colheradas de massa que deverá manusear até obter bolas de tamanho médio. Coloque-as num tabuleiro forrado a papel vegetal e leve de novo ao forno morno para levedar mais 20 minutos aproximadamente.

Ao terminar a segunda levedação, faça cortes no centro das bolas de massa e pincele-as com uma mistura em partes iguais de água e azeite. Coloque um pequeno recipiente com água na base do forno para humidificar o ambiente e ligue o forno a 200ºC, com calor por baixo, durante 25 minutos. Deixe mais cinco ou dez minutos com calor por baixo e por cima, até os pães estarem ligeiramente dourados.

Retire os pães do forno e deixe arrefecer se quiser congelar alguns; senão, comem-se melhor quentes ou mornos (como qualquer pão sem glúten). O pão sem glúten congela muito bem, pois ao descongelar mantém as propriedades do pão recém-feito.

Caso lhe sobre pão, ou a receita não corra bem (o que é normal quando nos iniciámos na panificação sem glúten) pode sempre torrar e triturar para obter pão ralado sem glúten.

Esta receita rende à volta de 12 unidades.




sábado, 1 de junho de 2013

Cure Your Child with Food, de Kelly Dorfman

Sendo hoje o Dia da Criança, gostava de recomendar um livro que pretende tratar delas: “Cure Your Child With Food” (Cure o seu Filho pela Alimentação) de Kelly Dorfman foi posto à venda nos EUA em Abril deste ano. É o sucessor do seu anterior livro “What’s Eating Your Child?”, lançado em 2011 e aborda as ligações entre padecimentos comuns na infância tais como infecções crónicas de ouvidos, refluxo, dores de barriga, dificuldades com a alimentação, atraso no crescimento, problemas comportamentais e a dieta. A actual geração de crianças tem a maior taxa de obesidade, alergias alimentares, distúrbios comportamentais e emocionais, doenças auto-imunes e problemas de aprendizagem já registada. A autora acredita que isto se deve, muitas vezes, à sua dieta.

O nome de Kelly Dorfman surgiu-me, por acaso, numa pesquisa, ao ler este artigo. O meu interesse no tema que aborda e as críticas que li espicaçaram a minha curiosidade, pelo que resolvi adquirir o livro na Amazon UK. Depois de terminar a sua leitura, acredito que este livro deveria ser de leitura obrigatória para os pais que lidam com qualquer tipo de problemas de comportamento, ou alimentares dos seus filhos. A informação que disponibiliza acaba por poupar incontáveis ​​horas de pesquisa. Oferece também completas check-lists de sintomas para ajudar os pais a perceber se aquela situação se aplica, ou não, ao seu filho.

Segundo a autora: "Há muitos livros informativos sobre nutrição, mas eu reparei que muitos deles eram aborrecidos. Estava determinada a escrever um livro que não fosse apenas útil, mas também divertido. A parte mais fascinante de ser um detetive da nutrição é lidar diariamente com as situações da vida real. Por essa razão, o livro gira em torno de histórias reais de famílias que lutam com problemas de saúde comuns. Eu compartilho as suas histórias, como descobrimos a solução, se a solução delas ajudaria o seu filho e como aplicá-la ".

A premissa básica dos seus métodos assenta na necessidade de os pais se tornarem “detectives”, algo com o qual só posso concordar: afinal, foi porque pesquisei em páginas e mais páginas web que encontrei a resposta para o que afligia o meu filho. Ela defende que a solução para a saúde das nossas crianças não cabe apenas aos médicos, principalmente quando estes não sabem ou não querem saber mais, mas passa também por um envolvimento directo dos pais nas decisões e na pesquisa de alternativas.

O livro está organizado por condição ou conjunto de sintomas, sendo fácil de usar e de ler pois a Kelly Dorfman recorre a uma linguagem descomplicada, mais apta a leigos. Ela consegue abordar doenças graves e doenças vivenciadas por crianças, sem criar receio no leitor. A organização do livro em quatro secções abrange o campo da nutrição infantil, abordando as mais variadas opções de tratamento nos seguintes capítulos:

Capítulos 1 e 2- aqui a autora aborda as questões gerais da importância da nutrição no desenvolvimento infantil e a necessidade dos pais serem um “detectives da nutrição”;
Capítulos 3 e 4- nestas páginas, trata-se dos meninos que não gostam de comer e para os quais a autora preconiza o programa EAT:
E-Eliminar todos os irritantes que possam causar desconforto;
A-Acrescentar um alimento de cada vez;
T-Tentar comer nem que seja apenas um pedaço de cada novo alimento durante duas semanas.
Capítulo 5- como tratar situações de refluxo;
Capítulo 6- a relação de dores abdominais com a ingestão de glúten;
Capítulo 7- o atraso no crescimento e a deficiência em zinco;
Capítulo 8- a obstipação crónica e a influência dos lacticínios;
Capítulo 9- a queratose pilar (“pele de galinha”) e a deficiência de ácidos gordos essenciais;
Capítulo 10- a falta de sono e os suplementos de melatonina;
Capítulo 11- a hiperactividade e a sua relação com o consumo excessivo de açúcar;
Capítulo 12- a bipolaridade e a ingestão de glúten;
Capítulo 13- a ansiedade e a suplementação com aminoácidos e ácidos gordos essenciais;
Capítulo 14- distúrbios alimentares, depressão e o glúten;
Capítulo 15- a relação de causalidade entre infecções crónicas de ouvidos e o consumo de lacticínios;
Capítulo 16- os aditivos tóxicos na alimentação e as perturbações do comportamento e alergias;
Capítulo 17- a dispraxia (um caso de “atraso na fala”) e um programa de suplementos: Omega 3, Vitamina E e Fosfatidilcolina;
Capítulo 18- os transtornos do processamento sensorial;
Capítulo 19- Perguntas mais frequentes.

Ao longo do livro, Kelly Dorfman recorre aos mais variados estudos científicos e opiniões médicas para validar as suas opções de tratamento. Refere sempre a importância da boa suplementação, com produtos e marcas de confiança, assim como da boa alimentação, sempre que possível com produtos orgânicos. Os seus site e blog complementam a informação do livro e são uma via de contacto: enviei-lhe, por email, uma questão relacionada com um capítulo do livro e recebi prontamente a sua simpática resposta. Como é óbvio, a autora recomenda procurar ajuda profissional se os resultados desejados não forem alcançados, mas, pelo menos, a informação no livro dá aos leitores um ponto de partida.


Artigos da autora:

sábado, 18 de maio de 2013

Rolos de canela

Já existe aqui no blog uma receita semelhante à que hoje apresento, cuja diferença principal é que a anterior resulta duma massa que leveda e esta não. As texturas são diferentes, sendo que a receita de hoje produz uma massa mais densa, mas é também muito mais rápida e ideal quando queremos rolos de canela mas sem o trabalho que dão normalmente. A receita tirei-a do mais recente livro da Nicole Hunn.

Ingredientes:
560 gramas de farinha sem glúten (usei Doves Farm Self Raising)
2 colheres de chá de goma xantana (omita se a sua mistura já contém)
2 1/2 colheres de chá de fermento em pó
3/8 colher de chá de sal fino
100 gramas de açúcar
170 gramas manteiga sem sal / margarina à temperatura ambiente
2 ovos L à temperatura ambiente, ligeiramente batidos
220ml leite/ leite vegetal à temperatura ambiente
220 gramas de açúcar mascavado claro
2 colheres de sopa de canela em pó
Glacê:
170 gramas de açúcar em pó
2 colheres de sopa de essência de baunilha

Na cuba da sua batedeira, coloque a farinha, a goma xantana, o fermento em pó, o sal e o açúcar, e misture bem. Adicione 90 gramas de manteiga/margarina, os ovos e o leite e misture até que a massa esteja unida. A massa deverá ser macia e relativamente fácil de manusear.

Coloque a massa sobre um pedaço de papel vegetal polvilhado com farinha sem glúten. Coloque outro pedaço de papel vegetal por cima e estique a massa formando um retângulo de 20 por 30 centímetros, com cerca de 7 milímetros de espessura.

Numa tigela pequena, coloque o açúcar mascavado, a canela, a restante manteiga/margarina e misture bem. Com uma pequena espátula ou colher grande, espalhe a mistura de canela uniformemente sobre a massa, deixando cerca de 1 centímetro vazio em torno do perímetro. A partir do lado maior, enrole a massa afastando-a de si até obter um rolo bem formado. Corte o rolo transversalmente, cada corte com cerca de 4 centímetros de espessura. Coloque cada pedaço verticalmente numa forma de silicone, ligeiramente encostados uns aos outros.

Coloque a forma no centro do forno pré-aquecido a 160ºC, durante cerca de 25 minutos, ou até que os rolos comecem a dourar e o recheio comece a borbulhar. Retire do forno e deixe arrefecer um pouco para os poder manejar. Caso tenha optado por uma forma metálica, não-aderente, certifique-se de que retira os rolos da forma antes de estarem completamente frios, ou estes podem pegar-se ao fundo.

Enquanto os rolos arrefecem, prepare o glacê: numa tigela pequena, misture o açúcar em pó com a essência de baunilha até ficar macio, mas suficientemente líquido para verter sobre os rolos. Regue os rolos antes de servir.







































terça-feira, 30 de abril de 2013

Sensibilidade ao glúten no El País

A edição de ontem do jornal espanhol El País traz um artigo muito actual e completo sobre a amplitude das condições associadas ao glúten, escrito pela directora da Associação de Celíacos e Sensíveis ao Glúten da Comunidade de Madrid, Manuela Márquez. Para quem é novo nestas andanças, a sua leitura é essencial pois em poucos parágrafos se resumem os avanços e dilemas da temática da sensibilidade ao glúten.


“SENSIBILIDADE AO GLÚTEN
Comer sem glúten representa um custo adicional de cerca de 1500 euros por pessoa por ano

Actualmente, presume-se que o glúten esteja por detrás de múltiplas patologias. A mais estudada e mais conhecida é a doença celíaca, que afecta 1% da população. Embora muito menos comum, também existe uma alergia alimentar ao glúten. No entanto, a mais comum condição patológica causada pela ingestão de glúten (estimativas afirmam que afecta até 6% da população) é chamada de sensibilidade ao glúten não celíaca. Esta entidade, para a qual ainda não há testes de diagnóstico, ganhou grande popularidade nos últimos anos. Esta é a razão pela qual muitas pessoas seguem uma dieta isenta de glúten.

A doença celíaca é a forma de sensibilidade ao glúten mais estudada e mais conhecida. De acordo com a definição mais recente, publicado em 2012 pela Sociedade Europeia de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição (ESPGHAN), a doença celíaca é uma doença sistémica de base imunológica causado pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos. É caracterizada pela presença de uma concentração variável de condições dependentes do glúten, de anticorpos específicos no sangue e enteropatia. Esta é a doença crónica mais comum e afecta o intestino de 1% da população, em média, com uma distribuição mundial. No caso da Comunidade de Madrid, de acordo com os resultados de um estudo de prevalência realizado pelo Ministério da Saúde na região, em 2008, em crianças em idade escolar entre os 6-18 anos, a doença celíaca afecta 1 em cada 79 indivíduos nessa faixa etária, mas é diagnosticada em apenas 35% (1 em 3, aproximadamente). Estima-se que 85% dos pacientes com doença celíaca (6 em 7) não sabem que têm a doença.

A doença celíaca não diagnosticada pode prejudicar a saúde a longo prazo. Estão descritas numerosas desordens auto-imunes, doenças endócrinas, neurológicas, psiquiátricas ou reprodutivas cujo aparecimento pode ser favorecido pelo consumo contínuo de glúten. A estas devem ser adicionadas outras situações que afectam a qualidade de vida dos pacientes, como fadiga intensa e contínua, fraqueza muscular e osteoporose.

A sensibilidade ao glúten não-celíaca é um conceito mais amplo e que abrange aqueles pacientes em que o glúten parece responsável pelo sofrimento da patologia, com base em evidências clínicas, embora os testes de diagnóstico para a doença celíaca sejam negativos. Neste momento, não há testes de diagnóstico específicos para a sensibilidade ao glúten não-celíaca, assim que primeiro se exige que o diagnóstico de doença celíaca seja excluído (ou qualquer outra suspeita de patologia, incluindo a alergia ao glúten), e se faça depois uma dieta isenta de glúten para ver se o paciente recupera. Se assim for, recomenda-se reintroduzir temporariamente na sua dieta o glúten para verificar se há uma recaída. Deste modo, será diagnosticado com sensibilidade ao glúten não-celíaca. Nos últimos dois anos tem havido muitos estudos científicos relacionados com esta questão que é cada vez mais difundida na sociedade. Os primeiros estudos têm encontrado prevalências de cerca de 6%. Talvez esta seja a razão pela qual um número crescente de pessoas faz uma dieta isenta de glúten, apesar de não serem celíacos, ou que optam por fazê-lo por conta própria, sem qualquer orientação médica.

A alergia aos cereais com glúten pode ser causada pelo próprio glúten ou por outros componentes desses cereais. Em geral, afecta um número não superior a 0,1% da população. Se a alergia é causada pelo glúten, geralmente é um tipo de alergia a alimentos e deve-se efectuar o diagnóstico correspondente que requer testes cutâneos (skin prick test) e de sangue para avaliar os níveis de imunoglobulina E (IgE) específica. Em caso de alergia, isto deve ser confirmado por um teste de desafio controlado num centro médico.

As manifestações clínicas da sensibilidade ao glúten, seja a doença celíaca ou a sensibilidade ao glúten não celíaca, incluem uma vasta gama de sinais e sintomas clínicos que se sobrepõem com os de outras doenças, tais como a síndrome do intestino irritável ou até fibromialgia e fadiga crónica. Isto para além da variedade de sintomas digestivos com que se podem apresentar (vómito, diarreia, obstipação, distensão abdominal, flatulência, dispepsia, etc.) e problemas relacionados com a má absorção de nutrientes (atraso do crescimento, anemia por deficiência de ferro, osteoporose), que podem ser acompanhados por alterações auto-imunes e endócrinas (diabetes tipo 1, tiroidite auto-imune), neurológicas (enxaqueca, deficit de atenção, perda de memória, demência precoce), psiquiátricas (ansiedade, depressão, anorexia) ou reprodutivas (infertilidade, menarca tardia, menopausa precoce, abortos de repetição). A gravidade ou intensidade dos sintomas pode variar desde muito discreta ou ausente, a muito grave.

Mais informação
O glúten é uma proteína encontrada no trigo, cevada, centeio e, em menor extensão, a aveia. É responsável pela elasticidade das massas feitas a partir da farinha de cereais e permite, com a fermentação, que o volume dos pães aumente, obtendo uma consistência elástica e esponjosa. Além disso, a sua utilização na indústria alimentar, quer como um ingrediente ou aditivo por razões tecnológicas, é comum no desenvolvimento de produtos que não vêm de cereais, tais como, por exemplo, um iogurte de morango ou molho de tomate. Por esta razão, a maioria dos produtos manufacturados que podemos encontrar em qualquer estabelecimento não podem ser consumidos por pessoas que sofrem de uma sensibilidade ao glúten.

A dieta sem glúten requer, portanto, que se evite todos os produtos cuja matéria-prima é o trigo, cevada, centeio ou aveia (farinha, pão ralado, massas, cereais matinais e toda a gama de produtos de padaria, pastelaria e bolos), bem como aqueles que têm utilizado derivados destes grãos (glúten, amido, farinha, etc.) na sua preparação. É importante ressaltar que, de acordo com o Regulamento CE Europeu 41/2009, os produtos rotulados "sem glúten", ou aqueles considerados "adequados para celíacos" nas listas produzidas pelas associações de doentes, pode conter até 20 partes por milhão (ppm) de glúten, ou seja, 20 mg de glúten por kg de produto. Portanto, é aconselhável basear a dieta isenta de glúten, em alimentos de preferência naturais, não processados ​​(frutas, verduras, legumes, carnes, peixes, frutos do mar, ovos, etc.), já que uma dieta baseada em produtos industrializados, mesmo se "sem glúten", pode ​​impedir a recuperação do paciente adequada ou mesmo ser um gatilho para recaídas.

A que se deve o auge ou a moda da dieta isenta de glúten? Por um lado, a doença celíaca, embora permaneça amplamente desconhecida, mesmo para os médicos responsáveis ​​pelo diagnóstico, especialmente os clínicos não pediátricos, os diagnósticos são cada vez mais fáceis. A isto deve ser adicionado o grande número de casos de sensibilidade ao glúten não-celíaca que estão a ser diagnosticados e que, portanto, também devem uma fazer dieta sem glúten. Isso faz com que a dieta isenta de glúten se esteja a tornar mais conhecida na sociedade. Por outro lado, são os fabricantes de produtos especiais sem glúten (que utilizam matérias-primas alternativas aos cereais com glúten), bem como aqueles que desenvolvem produtos de consumo geral, que cada vez mais evitam o uso de ingredientes que contêm glúten. Estes contribuem também para uma melhor compreensão da dieta isenta de glúten. Sem dúvida, há um novo e grande grupo emergente de consumidores potenciais aos quais interessa chegar. Com o que se sabe até agora, se todos os casos de sensibilidade ao glúten fossem diagnosticados, 7% da população teria que seguir uma dieta isenta de glúten.

Também se deve ter em mente o papel das associações de doentes que, dado o aumento do número de casos, têm mais recursos para exigir uma melhor qualidade de vida para estes, e trabalhar com o governo, profissionais de saúde, fabricantes, profissionais de hotelaria e meios de comunicação para atingir este fim.

Finalmente, considere que o que se come normalmente é pouco saudável e para resolver este problema muitas pessoas decidem fazer uma dieta. Entre as opções disponíveis no mercado, a dieta isenta de glúten está a ganhar terreno, talvez por causa da sua novidade, em relação às outras, tais como as dietas de emagrecimento. Em si, a dieta sem glúten não é mais saudável do que uma dieta normal bem regrada, mas como a dieta habitual, na prática, não é tão variada e equilibrada como deveria, a dieta isenta de glúten torna-se uma opção para melhorar os hábitos alimentares, já que comer sem glúten implica consumir alimentos, de preferência, naturais e seleccionar cuidadosamente os produtos fabricados a consumir.

6 em cada 7 doentes celíacos desconhecem que padecem desta condição
A doença celíaca deve ser considerada um problema de saúde pública devido à sua alta prevalência, especialmente se se começar a considerar os casos de sensibilidade ao glúten não-celíaca. Estas condições não envolvem sérias complicações quando detectadas precocemente. No entanto, o atraso no diagnóstico faz com que o paciente acabe com uma doença crónica e veja reduzida a sua qualidade de vida, para além de isto gerar mais gastos com a saúde. Portanto, é importante que o governo se envolva na melhoria do diagnóstico destas doenças e facilite o acompanhamento da dieta isenta de glúten, seja por uma adequada regulação da rotulagem de produtos sem glúten ou ajudando as famílias a lidar com o alto custo dos chamados produtos especiais sem glúten, tais como pães, massas e cereais de pequeno-almoço. Estima-se que o alimentar-se sem glúten traga um custo adicional de cerca de 1500 euros por pessoa por ano."

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Cada vez mais informação

Nada como começar o mês com notícias fresquinhas: a Visão de hoje traz um artigo de quatro páginas intitulado “A Moda da Dieta Sem Glúten”. Apesar do meu receio inicial de que a reportagem teria sido feita no modo “super-dieta de Hollywood para emagrecer”, a Visão fez prevalecer o seu espírito jornalístico e acaba por ser um artigo bastante completo onde se aborda tanto a doença celíaca como a sensibilidade ao glúten não-celíaca. Inclui mesmo uma pequena entrevista ao Dr. William Davis, o autor do famoso livro “Wheat Belly” e duas receitas, assim como fala com médicos, nutricionistas, doentes celíacos e empresas que vendem produtos sem glúten.

Vale principalmente porque é mais um artigo sobre esta temática tão ignorada, ou seja, mais uma oportunidade para que a informação chegue a quem dela precisa. 

Esta tendência é crescente e isso nota-se no maior cuidado que os fabricantes têm em informar da isenção de glúten nos seus produtos, quando há apenas dois anos atrás isso não acontecia. Encontrei recentemente duas marcas que passaram a incluir um símbolo Sem Glúten nos seus produtos e “assim, grão a grão, a galinha enche o seu papo”. Ora vejam:



Molho para Bolonhesa Pingo Doce






















Maionese Vianeza
















quarta-feira, 27 de março de 2013

Sem Glúten, Com Saúde

Existe no Facebook um grupo chamado Viva Sem Glúten Portugal que visa a partilha de experiências e informação entre intolerantes ao glúten. Dessa partilha nasceu a ideia de reunir as experiências de vários membros, assim como informações sobre as características clínicas das condições associadas ao glúten e a sua dieta respectiva, num livro que se apresenta agora com o título "Sem Glúten, Com Saúde". Está disponível para download gratuito e o objectivo é que chegue ao maior número de pessoas para promover a consciencialização sobre a intolerância ao glúten.

A todos os que participaram, muito obrigada pela partilha de experiências e conhecimentos!

(clique para download - seleccione Ficheiro/ Transferir)

terça-feira, 12 de março de 2013

Entrevista ao Dr. Luis Rodrigo

Publico hoje uma entrevista muito recente dada pelo Dr. Luis Rodrigo, o  chefe da Gastrenterologia no Hospital Universitário Central das Astúrias ao jornal Espanhol "Diario de Navarra". Parece-me uma entrevista muito interessante e progressiva, ainda que, a meu ver, o entrevistado não se tenha explicado muito bem na parte sobre a dieta sem glúten, onde menciona que o arroz e o milho são os únicos cereais sem glúten. Serão, talvez, os mais comuns, mas não convém esquecer o millet e o sorgo, assim como os pseudo-cereais tais como a quinoa ou o amaranto.

"Todos podem ser celíacos, até prova em contrário

"Todos podem ser celíacos, até prova em contrário", diz o Dr. Luis Rodrigo, médico especialista em doença celíaca (DC), tradicionalmente considerada uma doença da infância, mas que "pode ​​aparecer" em qualquer idade, inclusive 20% dos diagnosticados têm mais de 60 anos. "O record? Um paciente de 90 anos, um pouco tarde, não?"

Na sua opinião, a "enorme lacuna" de especialistas em DC limitou o número de casos diagnosticados. Rodrigo, chefe da Gastrenterologia no Hospital Universitário Central das Astúrias (HUCA), aponta 30 médicos especialistas em Espanha para adultos celíacos e o dobro disso para a infância.

"Eu não estou errado ou a exagerar, a minha opinião é endossada pelo aumento do consumo de produtos sem glúten", enfatiza o especialista perante o "aumento notável" no número de afectados e pela " grande variedade" de novos alimentos sem glúten disponíveis no mercado.

Ele argumenta que a Europa "vai à frente", mas a Espanha "está a juntar-se" pela mão da Sociedade Espanhola de Doença Celíaca (2008), que organiza congressos bianuais. Em Novembro do ano passado reuniu 120 médicos, "metade eram pesquisadores básicos, a outra metade clínicos," uma quantidade "claramente insuficiente para uma população de 47 milhões."

Em cerca de um milhão de celíacos no país, apenas 20% estão diagnosticados, diz o especialista. A intolerância permanente ao glúten faz da DC uma "doença generalizada" que pode levar a "todos os tipos" de distúrbios numa percentagem "muito significativa" da população, uma vez que a prevalência da doença celíaca é de 1 a 3 por cento, “ altíssima "para uma doença.

Dermatites, psoríase, eczema, anemia, diabetes, distúrbios da tireoide, problemas de fertilidade, distúrbios menstruais, aborto, complicações na gravidez, osteoporose, reumatismo, fibromialgia, algumas formas de epilepsia, esclerose múltipla, dores de cabeça e depressão são condições citadas pelo especialista, ligadas à DC, e até "é possível que tenha a ver com algum tipo de cancro."

Vinte anos é o tempo médio que leva um celíaco para ser diagnosticado, um período em que o Dr. Rodrigo relata uma jornada "interminável e muito angustiante" para pacientes que "deambulam por sucessivas consultas com diferentes especialistas", que "não pensam que a doença celíaca pode ser a causa dessas diversas moléstias ".

"Eu faço más digestões, incho muito quando como, tenho azia, vejo-me à rasca na casa de banho e tenho diarreia ou obstipação, ou ambos" são sintomas revelados pelos pacientes, diante dos quais responde o médico, "Vá, não se preocupe, isso são apenas nervos a afectar a digestão ".

Neste cenário, este especialista manifesta que deve-se estar "decidido a mudar a abordagem do problema", apostando em considerar a DC como uma possível causa dos transtornos, o diagnóstico é dificultado pelo "despiste", que "em muitas ocasiões" é gerado pelos testes analíticos quando são "negativos".

Propõe que perante uma má digestão, se procure "intencionalmente" a possibilidade de que o afectado seja um possível celíaco, e especifica "experiência e conhecimento", como requisitos dos patologistas que examinam as biópsias do duodeno, onde “se vê melhor a inflamação”.

"Diagnostica-se pouco, refreia-se muito e desconhece-se o valor de testes que acabam por ser imprecisos", diz o Dr. Rodrigo para resumir a situação actual em que "o paciente anda às voltas com diagnósticos peregrinos".

Quando perguntamos o que seria a solução, responde que "é uma questão de querer", e sugere que a um paciente que está doente, mas cujos provas de serologia e endoscopia são negativas, recomendaria fazer uma dieta sem glúten por um período de seis meses. "O que acontece na maioria dos casos? Uma melhoria notável”.

Propõe consumo subsidiado de milho e arroz, os dois únicos cereais que não contêm glúten, que é encontrado no trigo, centeio, cevada e aveia; e aconselha a desistir de "tudo o que esteja relacionado com estes cereais, pelo que os celíacos não devem beber cerveja "e defende a" dieta dos três P’s: sem padaria, sem pastelaria e sem pizzaria ".

Defensor da comida "saudável e completa", propõe uma "mudança de chip, especialmente para os jovens, acostumados a comer fast food, vista como" boa, bonita e barata ", mas que não é nem boa nem bonita, nem barata, e paga-se muito caro porque se anda a brincar com a saúde”.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O significado de sensibilidade ao glúten

A condição intitulada, por investigadores tais como Alessio Fasano, como Sensibilidade ao Glúten Não-Celíaca vai saíndo do pântano de indefinição a que estava votada à medida que surgem mais estudos dedicados a clarificá-la. Este interessante artigo publicado este mês no blog da revista Scientific American e intitulado "O Que é que Significa Realmente Sensibilidade ao Glúten?" faz um apanhado do que se tem descoberto até agora.


"A senhora é a enfermeira? Parece tão jovem", disse eu à minha mãe enquanto emergia lentamente do sono induzido pela anestesia, aparentemente não suficientemente coerente para saber quem ela era (mas agradecida por o meu discurso drogado ter sido tão educado). Tinha acabado de fazer uma endoscopia, ou seja, um médico havia inserido um pequeno tubo flexível pela minha boca abaixo até ao meu intestino delgado. Ao retirar amostras do tecido intestinal, ele seria capaz de me dizer se eu tinha a doença celíaca, uma doença autoimune em que comer alimentos com glúten provoca a destruição do revestimento interno do intestino delgado.

O diagnóstico chegou rapidamente: negativo. O meu médico explicou que, em vez da doença celíaca, a causa do inchaço e dor abdominal de que eu padecia era provavelmente uma "sensibilidade ao glúten". Se eu removesse ou reduzisse o glúten da minha dieta, provavelmente poderia reduzir os meus sintomas. Assim o fiz. E, quase sempre, ficar longe do glúten significava que o desconforto ficava longe também.

Mas, eventualmente, a minha formação científica venceu-me, e eu tinha que saber o que objectivamente estava a acontecer com o meu corpo. O que significa realmente "sensibilidade ao glúten"?

Infelizmente, não há uma resposta fácil. Quando os pacientes sem doença celíaca exibem sintomas que melhoram com uma dieta livre de glúten, são, muitas vezes, classificados como "sensíveis ao glúten." Esses sintomas podem variar desde a dor abdominal, ao inchaço e à fadiga.

No passado, a própria existência da condição tinha sido questionada pela falta de um diagnóstico claro. No entanto, como observa o New York Times, novos estudos sugerem que a sensibilidade ao glúten existe.

O que este e outros artigos recentes não mencionam é que os pesquisadores descobriram alguns pontos interessantes sobre como isso poderá funcionar. Descobriram também que a chamada "sensibilidade ao glúten" pode não ser causada, de todo, pelo glúten.

Para compreender as novas pesquisas sobre a sensibilidade ao glúten, é importante primeiro entender as outras duas condições induzidas pelo glúten, a doença celíaca e a alergia ao trigo. Ambas as condições envolvem o sistema imunitário.

Na doença celíaca, a presença de glúten no intestino delgado provoca uma resposta do sistema imunitário adaptativo, que é a parte do sistema imunitário que reage a invasores específicos através da produção de anticorpos. A reacção imunitária indesejável, em última análise, leva o corpo a atacar os seus próprios enterócitos saudáveis, as células que revestem o intestino delgado.

Um dos motivos dessa resposta indesejada é porque as pessoas com doença celíaca têm um "intestino esburacado*". Os enterócitos que revestem o intestino delgado estão normalmente “colados” em junções apertadas. Nas pessoas com doença celíaca, a cola não segura. Fragmentos do glúten podem esgueirar-se através desses buracos e provocar uma resposta imune adaptativa que danifica o revestimento intestinal (o mecanismo completo é descrito em detalhe neste artigo de 2009 da Scientific American).

A segunda condição induzida pelo glúten, a alergia ao trigo, também é mediada, em parte, pelo sistema imunitário adaptativo. Nesta condição, o glúten leva a uma síntese de anticorpos IgE, que causam a inflamação. A inflamação pode causar desconforto local e danos no tecido saudável.

As pessoas com "sensibilidade ao glúten", por outro lado, não apresentam evidências para o tipo de reacções imunitárias que ocorrem nos pacientes com doença celíaca ou alergia ao trigo.

Então, o que causa a sensibilidade ao glúten? Algumas pesquisas recentes sugerem que a questão ainda está no sistema imunitário. No entanto, em vez de a parte adaptativa ser a culpada, pensa-se que seja o sistema imune inato o culpado.

Se o sistema imunitário adaptativo é um alfaiate que desenha casacos personalizados, o sistema imune inato usa ponchos de tamanho único. Em vez de produzir anticorpos que reconhecem invasores específicos, as células do sistema imune inato tem receptores conhecidos como TLR que reconhecem os padrões gerais presentes numa variedade de invasores. Em seguida, os TLR desencadeiam uma rápida resposta inflamatória.

Um estudo de 2011 concluiu que os pacientes sensíveis ao glúten têm uma maior expressão dos TLR em comparação com pacientes do grupo de controlo. Esta descoberta sugere o envolvimento do sistema imune inato. Além disso, o estudo confirmou a ideia de que o sistema imunitário adaptativo não está envolvido na "sensibilidade ao glúten." Os enterócitos de pacientes sensíveis ao glúten estão firmemente colados entre si, ao contrário de pacientes com doença celíaca. Em resultado, os fragmentos de glúten não podem entrar por entre as células para activar o sistema imunitário adaptativo.


Mas essa resposta imune inata é realmente causada pelo glúten? Dados de outro estudo publicado em Dezembro sugerem que uma família de proteínas do trigo pode ser a culpada. As proteínas, inibidoras da amílase e tripsina, ou ATI, activaram um tipo de TLR e causaram uma resposta imune inata em células imunes humanas e em ratos vivos.



Curiosamente, o conteúdo de ATI no trigo tem aumentado dramaticamente nos últimos anos. As proteínas ATI protegem naturalmente o trigo de pragas. Como o trigo é produzido para ser cada vez mais resistentes a pragas, o teor de ATI também aumenta. Um aumento das ATI poderia explicar o que parece ser uma quantidade cada vez maior de pessoas sensíveis ao glúten.

As ATI não são a única molécula, que não o glúten, acusada de estar por trás da chamada "sensibilidade ao glúten." Os hidratos de carbono do trigo, conhecidos como FODMAP**, também têm sido implicados. No entanto, estas moléculas não causam desconforto abdominal ou outros sintomas capazes de provocar uma resposta imune. Em vez disso, a natureza destes indigestos hidratos de carbono pode provocar retenção de líquidos e gases no intestino delgado, criando inchaço.

Embora tenhamos feito alguns progressos para compreender melhor o que pode causar "sensibilidade ao glúten", muitas perguntas permanecem. Enquanto isso, para aqueles cujos médicos recomendam uma dieta isenta de glúten, haverá abundância de alimentos para escolher, à medida que o mercado de produtos sem glúten continua a crescer."

* Leaky Gut, no original.
** “Fermentable Oligo-, Di- and Mono-saccharides And Polyols”

Outros artigos sobre o tema:

segunda-feira, 4 de março de 2013

Conselhos para uma dieta sem glúten em crianças

Hoje publico um artigo recente que saiu no The Washington Post sobre como iniciar uma dieta sem glúten em crianças. Apesar de este artigo incluir dicas já dadas anteriormente, este jornal dá mais alguns conselhos muito interessantes.

Imagem do The Washington Post
"Elaine Taylor-Klaus iniciou a filha Bex na dieta sem glúten há 8 anos e meio, depois de um nutricionista ter sugerido que a menina irritável e sensível poderia ter uma sensibilidade ao glúten. Duas semanas após ter eliminado o glúten da sua dieta, Bex, agora com 18 anos, revelou-se uma criança diferente.
O filho de Melissa Berardi, Anthony de cinco anos, estava a definhar há dois anos atrás. Era extremamente pequeno para a sua idade, diz ela, e vomitava constantemente. Acontece que ele tinha a doença celíaca. Berardi, de Bellwood, Pensilvânia, mudou a dieta dele e diz que Anthony tornou-se uma criança saudável.
Seja por doença celíaca diagnosticada ou suspeita de sensibilidade ao glúten, muitos pais estão a mudar os seus filhos para dietas sem glúten. Os pais com pouco tempo podem sentir-se avassalados pelo pensamento de uma grande reformulação alimentar para as suas crianças, já de si esquisitas com a comida (e mudanças, em geral). Mas comer sem glúten não tem de ser assustador.
"Os pais estão com medo de tentar porque parece que seria muito difícil", disse Taylor-Klaus, uma formadora em Parentalidade, de Atlanta. "Eu era um desses pais. Eu não estou a dizer que não é difícil. Mas [a Bex] tornou-se tão mais fácil de gerir que a troca foi mais vantajosa do que eu pensei que seria. "
A vantagem é ainda mais pronunciada em crianças com a doença celíaca, uma incapacidade para digerir o glúten, uma proteína encontrada em produtos que contêm trigo, cevada ou centeio. Esta afecta cerca de uma em cada 100 pessoas na Europa e América do Norte, de acordo com o National Institute of Health. A Clínica Mayo estima que o número de pessoas afectadas quadruplicou nos últimos 50 anos, embora a razão não seja clara.
Não existe tratamento para a doença celíaca - que pode causar diarreia, inchaço e obstipação em alguns pacientes e alterações de humor e sintomas neurológicos noutros - mas pode ser gerida eliminando o glúten da dieta.
Aqui estão algumas sugestões de especialistas e pais de crianças numa dieta sem glúten sobre como tornar a mudança mais fácil para si e para o seu filho.

Consulte um médico
John Snyder, chefe da divisão de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição no Centro Infantil Médico Nacional em Washington, disse, por correio electrónico, que os pais devem consultar um médico antes de mudar a dieta de uma criança, para garantir que esta continua a receber a nutrição adequada.
Há muitas razões para os pais considerarem colocar uma criança a fazer uma dieta isenta de glúten, incluindo alterações de humor, eczema e transtornos do espectro do autismo. Mas se acha que o seu filho pode ter a doença celíaca ou uma grave intolerância ao glúten, é importante testá-lo antes de mudar a dieta dele. "O teste para a doença celíaca só é eficaz se a criança estiver numa dieta que contenha glúten", disse Snyder.

Seja um detective
Só porque um rótulo ou menu diz que algo é isento de glúten não significa que seja seguro para os celíacos, disse Jerry Malitz, presidente da organização Metro Celiac, em Washington. Além de ler os ingredientes, os pais precisam de verificar como são preparados e armazenados os alimentos. As batatas fritas podem ser rotuladas como sem glúten no menú, Malitz disse, porque são feitas com batatas. Mas se forem preparadas numa frigideira que tenha sido usada para anéis de cebola ou camarão frito que foram revestidos com farinha, pode haver contaminação cruzada.
"Um alimento pode ser isento de glúten, mas nada na sua preparação, armazenamento ou qualquer outra coisa ser isento", disse Malitz. "Isso é um problema muito grande."
O mesmo serve para verificar os rótulos no supermercado. Mesmo se algo estiver rotulado como isento de glúten, Malitz disse, os pais precisam de olhar para onde e como o alimento foi preparado para decidir se é seguro.

Faça os seus alimentos
Embora os produtos sem glúten estejam muito mais facilmente disponíveis agora do que eram há alguns anos atrás, estes são mais caros do que os seus congéneres tradicionais.
Os pais podem economizar comprando a granel ou comprando os grãos inteiros e processá-los em casa. Cindy Miller, de Boring, Oregon, usa um moinho para moer as suas farinhas favoritas.
"Não é preciso muito tempo para moê-los", disse Miller, cujo filho, Lucas, tem 17 anos e segue uma dieta isenta de glúten porque os médicos notaram que ele não estava a crescer adequadamente e suspeitaram que ele pudesse ter a doença celíaca. "Pode colocá-las no frigorífico e usa à vontade para fazer o pão de milho, os cereais de pequeno-almoço quentes ou panquecas."
Kelly Courson, uma técnica de saúde holística, em Nova Iorque, que tem a doença celíaca e escreve o blog Celiac Chicks, recomenda que as famílias que estão acostumadas a comer muito pão invistam numa máquina de fazer pão. "Você pode ter os ingredientes medidos e prontos a usar em sacos de plástico de maneira a que só tenha de acrescentar fermento e água", disse Courson. "Ajuda muito se tem que contar os tostões."

Faça reservas
Mantenha uma reserva de bolachas ou queques sem glúten no congelador de casa e no refeitório da escola ou escritório, para que o seu filho possa ter um “miminho” nas festas de aniversário.
"Antecipe para onde vão e o que podem vir a precisar", disse Taylor-Klaus. Todos os três filhos de Taylor-Klaus e o seu marido fazem uma dieta isenta de glúten por várias razões, incluindo eczema e dificuldade de concentração. "Antecipe o que pode fazer para normalizar esta situação por eles, para que não sintam que são diferentes de todos os outros. Pode ser uma sobremesa diferente, mas ainda assim é uma sobremesa. "
Stephanie Epstein de Gaithersburg também faz mimos especiais para seu filho Jeremy, de oito anos, para levar às festas. "Certifique-se de que tudo o que envia para a criança é uma sobremesa com muito bom aspecto, de modo que, mesmo sabendo que os outros estão a comer algo diferente, seja uma sobremesa à maneira", disse Epstein, que muitas vezes decora bolinhos de Jeremy com guloseimas. "Assim, as outras crianças vão querer o que ele tem, o que o faz sentir-se bem."

Coloque a escola do seu lado
Fale com o professor do seu filho e a enfermeira da escola, especialmente com crianças mais jovens, e peça a sua ajuda. Maria Roglieri de Sleepy Hollow, Nova Iorque, conta que a enfermeira na escola da sua filha tratou para que ela falasse com os pais de outras crianças sem glúten, para compartilhar informações.
A filha de Roglieri, Sara Friedman, de 16 anos, escreveu o "Guia Sem Glúten para Washington, DC," quando tinha 13 anos, e Roglieri editou o livro. A doença celíaca de Sara foi diagnosticada quando ela tinha seis anos. Roglieri sugere também procurar que a escola coloque um grupo de duas ou mais crianças sem glúten juntas na mesma turma, para que estas tenham um amigo com restrições dietéticas semelhantes.
Epstein disse que os professores têm ajudado o seu filho a fazer a transição para uma dieta isenta de glúten. "Eles dão recompensas por bom comportamento na escola, e uma das recompensas foi almoçar pizza com o professor. Ela pediu pizza para toda a mesa ", disse Epstein. "A sua professora especificamente pediu pizza sem glúten para [o Jeremy]… Ela até comeu a pizza com ele. Mostrava-lhe assim que não há problema em fazer uma dieta sem glúten. Todos somos diferentes, por razões diferentes. "

Dê uma uma oportunidade aos alimentos não processados
As crianças são notoriamente fastidiosas quando se trata de alimentos, e quase tudo do que é rotulado como amigo das crianças em restaurantes é carregado com glúten: nuggets de frango, massa com queijo, hambúrgueres e cachorros quentes ou esparguete com almôndegas.
Apesar de existirem versões sem glúten da maioria dessas receitas básicas para miúdos, Kelly Dorfman, nutricionista em Potomac, acha que o foco de uma dieta sem glúten deve ser em alimentos integrais, não processados. Abasteça-se de frutas, vegetais, sementes, nozes, carnes, queijos e outros alimentos saudáveis, em vez de se focar nas versões sem glúten dos seus alimentos processados favoritos, disse Dorfman. Esta sugere fazer um vegetal diferente por noite durante duas semanas e dizer ao seu filho que ele tem de dar duas dentadas pelo menos, para ajudá-lo a acostumar-se a comer alimentos variados.
"Eles não têm que adorá-los, têm apenas que os tolerar", disse Dorfman, autora de "O que Está o Seu Filho a Comer". "Eventualmente, se eles comerem muitas vezes, começam a gostar."

Faça-o em família
Iniciar uma dieta sem glúten com o seu filho, pelo menos durante o primeiro mês, pode facilitar a transição para uma nova dieta, disse Dorfman. "Você não quer que a criança se sinta como há algo de errado com ele", disse Dorfman. "Esta é apenas uma coisa estranha na vida moderna. Fazer juntos, ajudando o vínculo familiar desta forma, é muito importante. "
Epstein disse que, embora o seu marido, Brian, seja celíaco, o resto da família não comia sem glúten até Jeremy ser diagnosticado no último Verão. Agora todos comem sem glúten em casa, e ela e a sua filha Lauren, de cinco anos, comem glúten apenas quando estão fora. "Nós não podíamos ter "Esta é a comida do papá e do Jeremy e esta é da mamã e da Lauren'", disse Epstein. "Eu não posso deixar a minha filha tenha uma coisa e não deixar que ele tenha, porque isso não é justo."


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